ferro, brasa e palavra

marcada a ferro, brasa e palavra
cunhada a pecados,
divinos torpores.

por doutrina, naugrafada
nada além do sal das águas.

nua pedra riscada
rebuliço marinho
e amor, canto de morte:
ferro, brasa e palavra.

liberta, cego abraço
que não se vê, mas se toca
com um corpo carregado
– esta terra etérea de sons.

marcada a ferro
e a brasa e a palavra
descalabro
– esta terrível amplitude.

amiúde canto
o longo brado
a impossível completude.

tudo que doma, se deforma
conforme os encontros
longas jornadas.

eu traio o teu nome
atraio os chamados.

soturna, tua chama
me acha, tua noite
queimando horizontes.

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25/11

Estilhaços em todos os lugares e pessoas que olho. Não só nos ônibus queimados, na fumaça que espalha pelo ar o tóxico terror. Na perplexidade, seus próprios sinais, seus abismos, seus gemidos. Mesmo com tudo que já se viu e já se conhece. Os gritos e os silêncios coabitam a mesma espécie de fuga. Um mesmo caminho de busca. Haverá rendição?

Emergências

A dor vulcaniza seu magma.
Não é a pele que rasga,
São as quintessências do corpo.

Eu não digo sangue,
Habito a crosta
De texturas impronunciáveis.

Aparições não se dão a ver.
Mas os olhos, esses vendilhões,
Escavam as promessas
No templo da fé.

Punhados de torpor
Sobre fundas emergências;
Ermos humores
Sob os vermelhos insepultos.

E o grito de adaga
E o adágio do silêncio
Movem a ferida aberta.

É hora

É hora, é hora. Árdua, custosa. Difícil a noite nesta casa. Sob pensamentos repousam delírios. Às onze despertam da mansidão açucena; na boca um lacre custoso de abrir. Quase como uma emboscada. Os minutos derradeiros deste dia. Prepara a carabina porque o homem há de passar. Mantém o seco dos olhos; mas sob frinchas, fendas e pernas faz escorrer a meretriz o líquido da noite. Escorre tão branco quanto o leite do sono. Enegrecido no véu das horas. Basta que o cortiço acene com esse sono branco, movediço por entre as fronhas, cortinas; basta que se apaguem algumas velas; para que a noite derreta como larva nos meus pés. Abrem-se caminhos tortuosos, noites; mil e uma. A fornalha do dia decepou a calma. Há abundância de desespero, de ventos tolos emancipando os cabelos. Difícil o minuto entrecortado, o que antecede a calmaria de amanhã. Um sussurro ao longe berra pro vizinho que o silêncio chegou. É hora de não-sei. Deitar? Eu não me deito. Eu me acendo em soluços, e tremo perante o confronto dessa treva caindo no abismo do fim do dia, até que amanhã, amanhã a noite venha de novo buscar o conforto doméstico do quase escuro, televisão ligada, antes a vitrola, os ritos dentro de casa que vão mudando. A família que se reúne todas as noites, antes do descalabro. É quando tudo emudece, até mesmo o som corre a desaparecer a algazarra de então. Difícil demais, custoso demais fazer a casa aquietar-se, o sono vir buscar as crianças, os velhos, e os moços. Eu fico aqui, objeto noturno, satélite que também vem apanhar seu vintém de luz. É a parte que me cabe neste pesadelo; eu tremo as mãos, antes do sonho bom. É tudo o que eu posso fazer por vocês. Descrever esse fim de noite, que me cheira a morte, benedictus morte; antes que eu me recomponha do meu grito de soltura. Antes que eu volte com o grilhão da rotina. Agora permanece a roda liberta do meu pensamento nu. Tudo desacontece. Sim, quase como uma morte. Eu me transformo. Eu me solidifico junto com a noite, ganho maestria de desespero; ignoro a sapiência. Dubiedade de encantos. Tudo pode ruir se o ato não se fecha. Basta uma voz mais duvidosa no meio do meu caminho; uma cortina ventando incerta; olhar despreparado de toda mãe para a morte do rebento, que se despede porque virou essa sentinela do céu; basta um entreluzir de janelas que se olham, para que o líquido da noite vá escorrer em outro lugar destroçando o meu exército de sonhos inteiro. Destroça o meu reino de virtuosidades. Sombras justapostas, milimetricamente adestradas para estarem lá, diante dos meus olhos, descrevendo uma sensação. Mas se por algum sortilégio este encanto é rompido… nem sei bem se é isso o que meus nervos pedem. Ele foi rompido agora. Não posso trazê-lo pra vocês. É sempre essa a hora em que as mãos repousam sobre o teclado, a esfinge do pensamento olha o pensamento contido, todo imóvel antes de se ter. E parece que foi sonho. A imensidão desses encontros. É como se me trouxessem um Nazareno; ouro, incenso, mirra. A lisonja de olhar pro mundo antes de ser mundo, a noite antes da noite, antecipando Deus. É como se eu pudesse perceber os deuses de um dia se despregando dos céus, para virem os deuses do outro. O que eu posso contra esse destino que se agita sobre mim? O meu véu é brando, brando demais, frágil demais o meu sim. Até que eu descanse o meu sono calmo, todas as horas do mundo mergulharam aqui dentro, parindo o dia. Só me resta viver.

(24/09/2003)

*Dizer sim aos ciclos, resgatar. Por isso, trazer de volta palavras que até hoje me afogam.

Lição de música

Na fila dos sinônimos,
Adjetivos torvos carregam
O sombrio guarda-chuva:
Macambúzio; embezerrado;
Sorumbático; carrancudo;
Só que, meio infantis,
Contradizem, forjando
Levezas quase onomatopaicas.
Tem-se que: dissonância
Pode ser música.
Acordo de cavalheiros.

[Keywords: Teofilo Tostes Daniel, Schoenberg, Aurélio].

Como palavra

Palavras, evocações que faço
Beberagens do desconhecido
Sob a areia dos meus pés
Fortuitamente, o delírio.

O jorro profundo o silêncio
Seminal do indizível
A liturgia do poema.

Clivada de oculto, não meço
Que levo uma espécie
De vida dupla, movediça
Transubstancio-me na coisa

Da lida da lira.
Como palavra me abro
Ao rito vertida.

[matizes, seminários]

Digo agora que mal tolero os seminários. Me acomode numa cadeira, suaviza dizer o que há pra viver. Mas é a reverberação da voz nos olhares. Tudo se tinge de “deu branco”. Matiz do atordoamento que me faz sincopada. Espécie de purificação, ou o seu avesso: nu de dizer que não sei planejar. Que assim não faz sentido. Um tipo estranho de rosa quer conhecê-lo, só que por dentro do silêncio: no perfume.