(de um sonho ainda sem tradução)

temblando por la noche su cisne negro
la muerte adelgazada en las aguas
todo baila.

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Ocaso

“Eu te amo”, disse para as cinco horas da tarde.
E sua pata me afogou em seu abraço de crisol,
já para dentro ao mundo, a luz suspensa.
Uma noiva que teme os desdobramentos da celebração,
mas tão pronta, pós-Ofélia,
flutua molhada ao redor da Rodrigo de Freitas.
Os pedalinhos, toda a lagoa, invejando nosso afundamento.

Um fantasma acata pacientemente seus heterônimos
– avejão, espectro, sombra pavorosa –
dentro da umidade calorenta do fim do mundo.
Apenas um garoto, que espera em sua transparência, maior que a chuva
pelo dia do julgamento, quando finalmente libertará sua pele
de terra, folha, inseto. E beijará a menina morta.

Lendo aquela moça

A moça é um tufão, que chega aconchegado;
tem a legitimidade dos abusos, a durabilidade dos espantos.
Natural como ninguém dentro de um torpedo,
amacia uma rocha para salientar suas camadas umbráticas
depois da queda: invaginações perfilhadas de peixes;
nomes augúrios do nada – um bebê, um submarino, uma roseta.
Enumera o que se abre, para brincar de esconder
o deambulado coração em pulos.
Sustenta com a boca: palavra lambe palavra.
Como um gato procedendo o banho.

O sangue de um poeta

“You should know that the child’s guardian angel appeared”
(Le sang d’un poète – Jean Cocteau)

Um menino cobre com seu corpo
o corpo de um menino morto.
A pele negra sobre o agora
que é apenas sangue e gelo
para sempre resvala
transmutada em asa de pássaro –
anjo ao adeus da infância.
O tempo os ignora.
Mas nos olhos acesos do poeta
o ecrã profetiza:
em seu sangue, o meu sangue.

o sangue de um poeta