Paisagens n’alma

Meu rosto relembra suas mãos na distância do contato. Ele é a terra para o seu plantio. É a promessa da flor que você colherá. Colhe, pois, flores de mim, nas faces encharcadas de poesia e lágrima. Colhe esse viver cheio de pranto e medo indócil. Vele por mim, pelo meus ventos, que remexem crinas, destrançam cabelos, espalham as sementes que sonham com pétalas. Me ensina a fertilidade do sorriso. Vem sazonar meus frutos, cultivar minhas plagas, chover sobre mim. Vem pra me fazer sua. Vem que eu preciso tanto. Vem que há relâmpagos, e os granizos ferem. Há um assombro na menina dos meus olhos. Há um rio nascendo nesse castanho cheio de amor. Transbordando a alma, nutrindo meu amanhã. A vida me arremessa frágil sobre os campos do mundo. Sem grãos, sem sementes, sem terra. Só com o sonho da flor. E com o sonho da flor eu faço um jardim na sua alma. O sonho e a flor você colhe com suas mãos de ternura. E o impacto de tudo o que não sei e sinto fortemente nas artérias e no incorpóreo ser, faz na minha alma uma paisagem a mais.

Graça natural

Graça natural de quem possui uma delicadeza. O efeito dela sobre mim, compondo em meus dias sinfonias de acordes perfeitos. De acordo com o coração. Felicidade que inaugura com flores o presente, apruma o olhar para o futuro, quer para sempre, sabe dentro, mora onde há chama, deleita-se de bem querer. Quase consigo entender como uma grande alegria também dói. Devagar, surdamente, como ser humano e querer ser anjo. Como ser anjo e desejar ser terreno. É sublime e carnal. Depois dessa dor que não é bem dor, o corpo aquieta. E então, sorrisos. Apenas sorrisos. Dentes, olhos, duas bocas, alma presa à alma, e uma certeza milenar. E o que mais sei, se não que amo? Amo. Logo, sou dela. O que mais sei? – pergunto-me. Registro que sou esta, mulher atravessada de carinhos, de novos sóis, consagrada ao que restou de mim, nesta fusão de sentires, neste enroscar de pernas, no que nunca mais é abandono.

Te escrevo…

Te escrevo com fome e silêncio. Fora das convenções, fora da lógica, te fazendo doer, porque não abro mão do que sou. Mas teu nome, não sabes, está pregado em minha boca. Até quando? Não importa. Quem sabe até sempre? Deliro-te. Deliro de ti. No meu refúgio de girassóis, no meu exílio voluntário, no cansaço, no recomeço, na esperança, na solidão das horas mais minhas, em que me revejo e renovo. Em que convoco enigmas, inexplicações, distancio-te para te ter mais perto no paroxismo do reencontro. Despejo e desejo. Carinhos e urgências. Oscilo extremos de agonia e gozo. Sou aquela que na ausência doce te ama até a morte. Até a morte do instante. Me preencho com a falta, adentro todos os labirintos, me perco pra te achar dentro de mim. Achar o mundo; e vou de mundo em mundo te achando e perdendo. Esta sou eu, meu bem, sem aviso prévio, improcedente, doce, mas tão doce, percebe? Afeita ao afeto, só que arredia também, tudo de sim, tudo de não, talvez quase os dois. Eu não sou só um jogo de palavras. Eu sou a afirmação da minha inconstância. Assumo, assumo meus contrastes. Esgoto em sombra e renovo em luz. Te quero com a minha cara amassada de sono, te quero da torre dos meus delírios, te quero no presente, te quero aqui, e na terra que é só minha, com a urgência dos verões, e na nostalgia dos invernos. Com um jeito de nunca, platonicamente, com um jeito de sempre, possuindo com força. Perto e longe, do jeito que eu puder e quiser. Não sou egoísta, vida minha, sou a que não termina. Transito, oscilo, alucinada, responsável, contente e suicida. Cabeça dura, eu sei, eu sei. Mas com tanto amor impregnado na distância, com um jeito de criança ardendo impulsos de presença, quando me dá na telha, quando estar perto é a finalidade a que me proponho. No seu colo, com medo, entre as estrelas que não tocamos, na poeira que acumula histórias, na cama dos nossos afagos. Nesta madrugada em que não houve. Não quero te fazer doer, mas esta sou eu, aprisionada à liberdade da busca. E te quero assim, toda minha, mas só quando tu mesma fores tua, e eu também. Então eu vou, volto, mas como quem nunca partiu. Porque há no meu rastro, toda a minha alma que ardeu por algo ou por alguém.

Vida canibal

Momento decisivo: a câmera dispara o presente, o coração dispara o amor. Me retrata em filtro azul, me espera dentro do mar, quer que eu mergulhe, que vá caçar a pérola. Mas hoje a saudade sangra, chora o existido. Hoje é ontem e amanhã. O que brilha no sorriso da primeira hora, turva na olheira lacrimejar da noite. É o esquecido que se ressente, porque toda novidade assassina. Mesmo que em legítima-defesa. Mesmo que por amor. É um jeito novo de fazer as mesmas coisas. Se olhar no espelho, pousar a mão no rosto enquanto reflete, se ajeitar na cama a espera do sono e da carícia do outro. E apesar de bela, a vida é um trator deslocando antigos caminhos, devorando algumas flores de percurso, sobreviventes, feridas. Porque afinal, é o replantio no solo do meu corpo, na terra de antigos abandonos, de amores esquecidos. Mas voltemos ao presente. Tudo caminha para o que sempre esperei. Então por que os olhos cheios de adeus? É que meu desatino virou discernimento. Meus gritos viraram afagos. Em tudo uma despedida. E eu me despeço. Eu ardo na fogueira do Tempo. Tragédias e devoradoras alegrias? De novo as viverei. Mas choro nesta estação, tanto quanto sorrio e encontro. A criança que pedia infinito, hoje é mulher que pondera, que não tem só utopias, tem metas. Ainda não sei se ela conserva os mesmos mitos, se se lembra de mim, se tem rimas, se fará poesia. Dormirá com a porta fechada ou aberta? Noto, pelo contrair da boca, que a sede de céu persiste. É um bom sinal. Noto, pelos seus olhos, que ainda conserva estados de chuva, que alaga, mas que ainda é sertão em seu nordeste. Sua lua ainda curva de mistérios, pálida e cristalina, num céu púrpuro. O estertor de lágrimas que só o silêncio escuta, permanece assim, indecifrado, surdo. A solidão é um bem e um mal-me-quer eternos. Mas a vida já não é uma ilha. Há pontes, mão com mão. E o coração renova sua batida. Tum. Feliz. Frágil, mas regozijado. Tum. Hoje que ninguém vê, eu beijo o ontem. Tum. O vento descobre lembranças atônitas. Tum. E o futuro me abduz em sua nave hi-tech. A cada passo, o descompasso de marchar pelas avenidas do tempo. Ruas nos meus pés, asas no coração. Uma saudade, um novo afeto. Toma lá, dá cá. Vida devoradora de presentes. Vida canibal. De passados ausentes, de futuros latentes.

Tenho a arma de todos os dragões:
Labareda-boca
Dói-me a alma pela cicatriz
(E nem um pássaro empedrado doeria tanto).
As águas
Cicatrizam-me
Histórias de abandono.
Doem-me
Também pelos cotovelos
As paixões do arvoredo.
É o bicho tristonho
Movendo as pedras
Do meu rio sem margens.
Na fumaça que trago
Recobrem-me saudades.
Respiro fundamente a superfície
De um atroz
E absorto
Nada.

 

Para quem me abraça: todos os meus dedos.
Para quem desalinha cabelos: os pelos do meu corpo.
Para que me beija: beijo de poro a poro.

O corpo: repouso de fendas abertas.
Os pelos: todos os meus poros.
Os poros: alma transpirada.

Veneno eficiente do beijo,
Desalinho em dedos,
Quem beija?

Para quem beija: fendas abertas.
Para quem abre: dedos, abraços.
Para quem repousa: o amor.