poesia

Outros poemas de inverno

O inverno da nossa desesperança

Dada a falta de experiências
significativas
este inverno ficará apagado.
Dada a falta de luz
sobre a pele tremente
sobre ela ruiremos
memórias revolvidas
poemas solapados.
Problemas genéticos
sopro, diabetes
soluções maternais
sem embasamento médico.
Como exemplo
de nosso processo
de colonização
transformaremos
a ciência e a ideia
da racionalidade científica
em solução oracular
convertendo o
pensamento objetivo
na grande narrativa
épica do mundo.
Em nome
dessa hegemonia
julgaremos
povos, práticas
territórios.
Teremos a dizer
o mesmo do mesmo
do medo.
Mesmo que na falta
de experiências significativas
mais valha o tremer.

* * *

Viagem

O inverno uma caixinha
escura em direção
a Nova Dutra fecha
os olhos com sono
de Dramin mais adiante
chega ao terminal do Tietê.
Próximos dias: difícil umidade.
O riso os cafés intermináveis
com ele que leu primeiro
meus livros prepara
um posfácio. Que fazer
agora com essa palavra
aguda que arrimo
vencendo brevemente
a distância: irmão?

* * *

Enquanto canta Joanna Newsom

Há qualquer coisa entre a voz e o inverno
que apressa a queda das folhas.

Não resiste a ser entoada
pela boca que simula outono.

Começa antes das estações,
colando-se ao chão, fazendo-se rasgo.

Da certeza, apenas uma brecha
entre o frio e a ramagem espessa.

* * *

Inverno 2013

Caíram as folhas,
homens acorrem
a semear o presente.
Mantilhas desfraldam a terra
e os passos aprendem,
com as mãos ensanguentadas,
com a cabeça perfurada de dúvidas,
o que ninguém sabe, nem mesmo o frio.

* * *

sem título

A tarde morta, o frio.
Ciclos, caminhantes.
Tremeluzem
no centro da falta.
Fala – o corpo
obscuro do grito:
o silêncio – gradua
a sombra das horas.
Sobretudo, aquiesce.
Como quem consente
a beleza, o fogo, a morte.
Então arrepia.
E então, cala.

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Sagrado

Há outras distâncias
o ermo, as velas
usadas da superfície
ao sabor da ventania.

Ser de outro mundo
sentir o luto, as mãos
quase em prece
ser a pele deste mundo.

Uma estação trai a outra
acirra o desejo de viver.
Temos agora as folhas de antes
amarelecendo num mesmo chão.

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Ciclo

O mundo com sua taça embebida
no aroma dos mortos
com seus dizeres pequenos, sombrios
suas devastações de ofício.
A regra de cálculos ruminantes
movimentos abocanhados pelo vinho
das fantasias itinerárias.
Acordar de repente, a taça sobre a mesa
carta quase a termo, parágrafos colhidos
de olhos movediços num palco de intuições.
Aquela antiga dor, o ventre que escurece
a transparência de razões também sagradas
vermelho agônico-anacronia.

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Tudo com detalhes

Talvez, deseje depor todas as coisas
ordenar veias e pensamentos
diluir o quarto em dedos
soldar teu sono com o vermelho
invertendo o que se destinou por boa gente
tudo com detalhes que, de uma hora pra outra
me atreveria a abandonar por rotinas
que alguém chamasse gastas
pés assentados em Cochabamba
pés viandantes por Compostela
pés que não se desviam de ser pés.

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