Ainda sobre o fogo

Nunca mais ousar fogo num poema.

Nunca mais deixar esse nó na garganta

me possuir

com a destreza dos que não têm tempo para a delicadeza

– nunca mais perder a juventude por delicadeza.

Desdizer a ordem das coisas que não acontecerão mais.

Embalar a vácuo

a dor

na seladora doméstica

congelar a carne

prenha da dor

para que não sofra embolias

pela migração de um corpo estranho

um halo no círculo venoso

na concretude do sangue

que medra os algozes.

No entanto

qualquer forma ainda estacionária

da matéria

é matéria

qualquer ausência

é presença impotente

da ilicitude do silêncio

no momento reverso

da justiça.

Trazemos um punhado oco

nas mãos

da possível pedra

lapidar

tão delgada

anterior a tudo

vinda da lumieira dos tempos

magmática

quando o archote

untado de breu

era o meio seguro

de dizer alguma coisa

por entre as giestas

ou qualquer designação botânica

que se encarregasse

do respiro

na paragem

frente à beleza tênue

de arranhar os significantes.

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Conduto

Algo em mim
morre com o beijo da idade

sinto tremerem
até os ossos dos convivas

e não sei falar
ao períneo

e não sei lidar
com o tibiotarso

não sei se sou capaz
de ouvir esse rumor de avencas

que seguem governadas
por outras menos nobres folhagens

algo em mim
é o beijo.

Consumação

Não é possível retroceder
não há lugar no solstício

nós engendramos
caos e carnificina

uma revolução
no corpo social determina

trabalho árduo e instantâneo
de reorganização:

o fogo não é a revolução
o fogo é o anzol

o fogo não é a pobreza
o fogo é o Estado

as tantas propagações
de abandonos cíclicos

pelo que não fez o fogo
pelo que fez a história.

Distopia

Deixar meus olhos vagarem outra vez pela dureza dos espaços

ressentindo o tom aquiescido das potências vistas

mas sem se deixarem cegar pela memória que arquiteta

sem se deixarem obscurecer pelo compadecimento de terem sido já pensadas.

Deixar meus olhos vagarem por dispêndios os mais diversos.

Sobretudo deixar vagarem meus olhos pelas plataformas de petróleo

compadrios, rejeitos de minério, armas tóxicas, balas ‘perdidas’

como certezas incineradas de um futuro posto.

Deixar meus olhos vagarem pela matriz indignada do presente sórdido.

Samsara

1.

São raízes impregnadas
diretrizes de paixão
emulam no seu conforto de terra
o desacerto humano
se com isso vibram
às dispensas de saber
o emudecimento da forma
no rastilho incongruente
fazem do erro
a palavra exata
a palavra anoitecida
a palavra que costuro há anos
o mesmo projeto
simbiótico da semente.

2.

Pequena e amortecida
uma fagulha do sertão
a semente se enovela
caos e cuidado
kamikaze ao avesso
quase ingressa
no paradoxo –
tremular ao sol
cheia de febre a
semente de si.

O cambista sem língua

“Não se sabe se chegou a seu destino ou se morreu no caminho”
Bahiyyih Nakjavani

Proferir sons ininteligíveis
contra rochas desfiguradas
afastando jinns e demônios
dos ciclos de samsara.
Deixar a caravana partir
com as silhuetas do deserto
na iminência dos bandoleiros.
Revisitar um beduíno
ora em ruínas
mensageiro do poço
lançado às pedras.
Expurgar com fogo
as escrituras sagradas.
Assistir à tempestade de areia
ranger sua língua sem alforje
no fundo dele mesmo.

Secto

Porto a voz em torno de uma ideia

esqueço a multiplicidade de corpos habitando logradouros tão diversos

não há tabela das diferenças periódicas

se o que eu construo são muros em vez de – sim, barricadas, quando necessário – pontes

se o que eu afirmo só serve aos meus

a mim interessa a mim.