Rarefação

É como uma tristeza
que permeia
a experiência
vaga
sensação
de romper
o círculo
a linha externa
esgarçada
em limites
de assu
jei
tamento
constante
margem
manobra em luz
de cera
nos olhos
das asas
se derretendo.
Termina
em duas quadras
leve brasa
encurtada
de um aço
que açoda
o que quer que
se considere
aço
o que quer que
se considere
único.

Certas mortes

O rescaldo da morte
de quem morreu em vida
morte biológica
último silenciamento
morte no dia dos mortos
apagou-se o sopro
da menor possibilidade
ou morrer: ato final
de partilha, de fala
de recusa
do idioma dos filhos
seus aguilhões –
morrer no fenômeno
de falar quando
ninguém mais se escuta
desagrilhoar-se
morrer inteiramente.

Adamantita

Amo a poesia em sua rudeza
em pensamento, sim
amo, se não esconde sua tintura

se não celebra a fétida cultura
de uns para poucos
destros donos da palavra.

Amo mais, se machuca
verdadeiro, insincero
estro peregrinável

incrustado em Aruanda
nos dialetos de Luanda
– o que não sei e me protege

e me vindima – certeza de ouvir
e de novo, inerente
entre as coisas viventes da carne

as coisas secretas da carne.

Alvorada

Sou aquela que na noite
abre um postigo
desenvolta às escuras
preparo a imensidão
revoltosa do meio-dia.

Avante o pânico
criança antiga
avante o nojo libertado
do velho abusador.
Vamos e de mãos trêmulas
decalcando a noite.

Quando no entorno da ternura
morre a ternura
quando de olhos bem abertos
ofereço meus traços esmaecidos
sem pregresso de seca

quase peixe e floresta
a força que me abre
mora nesse continente
antes de mim.

Liberoamérica

Fui convidada pelo Darío Zalgade para participar da Liberoamérica, um portal que congrega artes visuais, cênicas, literatura, entrevistas, ensaios em diferentes línguas, transnacionalizando o contato entre escritores contemporâneos, sobretudo latinoamericanos. Uma proposta interessantíssima que visa “la integración y la pluralidad sociales y la igualdad étnica, cultural, de género, clase, credo, cuerpo y orientación sexual”. Agradeço enormemente. Em meu primeiro post, reuni 4 poemas escritos em 2017: “como quem invoca as portas e os quadrantes”. Eles questionam, por sondagem, delírio e crítica, a maquinização do olhar e do corpo, em suas estruturações mortíferas.

quadrantes

https://liberoamerica.com/2017/10/26/como-quem-invoca-as-portas-e-os-quadrantes/

 

Recoleta

Na boca, um chumaço
de espinho indecifrável
e nas mãos
na inclinação de voar
se apressa
um pássaro na cabeça
da estátua
de bom agouro
– onde sóbrias jazidas
humanas –
a eternidade do mármore
não aponta
qualquer certeza
próxima do imóvel
confessa o espinho
consumido pela
artificialidade do tempo.
Um coração roça os dedos.