Memorabilia II

Eras geológicas me consomem o ventre. Peso verbo, pesa-nervos. Artaurdiana no apartamento em chamas. Degelos pelos hemisférios dos retratos, de letras velhas em teorias da conspiração do momento. Revestidos de poeira centenária, os lustres da casa caem nas mãos do obreiro. Sobras. O corpo não se encaixa às mutilações, a luz é seu próprio ambiente e o corpo é sombra. Ao declínio do vão do meio dia, vão-se as casas corroendo pessoas.

Marisa

Existir na virada do vento
no parque das ruínas
trazer nascimentos
no seu nome, mãe
risa, sad sad lisa
her eyes like windows trickle in rain
mentira, nos seus olhos que amam
madre, faz sol.

Memorabilia I

Cartas empunhadas em papel de revista
propagandas na pauta do remetente
acordo eficiente de errejotas e siglas febris
estados inalcançados de nossas mãos dadas
pernas partidas desejo mais doce
que as pequenas horas dos dias desperdiçados.

anotações

por intensa que seja a harmonia ou quebra entre som e sentido, por especulativa ou imagética que possa ser, a poesia, nas suas mais diferentes filiações, parece ter como fator preponderante seu poder de figuração/deslocamento. por isso, sua irrevogabilidade, o caráter meio indiscernível e impermutável de seus elementos, de sua língua. antilírica, hermética, intelectiva, virulenta, ela como que instala um efeito suspensivo e multiplicador dos sentidos da realidade. para isso, pode soar aparentemente banal, pode propor a reinstauração de uma desordem mítica. ainda que não referencie diretamente fatos de seu tempo, é produto do seu tempo. embora figurativa/suspensiva, não reconecta nada; antes, corta a realidade e apresenta camadas de suposições.

A delicadeza improvável do carrasco
o hábito reprimido do voluntarioso
o anel do fascista
a mão nua de Francisco de Assis.

Por obra e graça da verdade desgovernada
Deus ou Samuel Beckett não compareceram à
jornada mundial das pequenas virtudes
contrataram Godot no seu lugar.

Sabe-se, Godot também se absteve
de, como se diz, prestigiar o ínfimo evento –
todo dia um homem passa vergonha
no que ele concordou, sem ponderar contradições.

Perto das faunas típicas do inconsciente, num casebre
Thoreau e Assis elogiavam Bachelard
por sonhar coisas fantásticas, como Chagall –
‘um é de pedra, o outro, floresta’

disseram os dois últimos, também interlocutores.
‘Sonhando um sonho andante, realizam-se na carne’
já não se sabe quem proferiu. ‘Não como alguém que
possa ter seu lado sombrio desvelado

ou saber-se, de repente, iluminado
mas por pisar firme as listras sinuosas do sol.’

Grafar

trama trança fiama
dias repentinos
serpentina de poentes
derruba derrapa derrama
centros de terra
frenagens sensores
in consequentes
onde o poema é a arma quente do nome arrancado
onde o poema é a cauda do tempo amputado
escreve dos lados do berço do abandono
rasa paz branda
inaugura verbera
a encantação da pá
lavra

Minha vida vai estar numa mochila
a acompanhar dois hemisférios
a nadadora mergulha num braço
um traçado sutil faz menção da água.
O que o amor evapora são espaços
considerar o mundo com as supernovas
do quarto, da casa: o verde água
o vermelho rubi, o azul sempre sem nome.
Sempre algo se conquista no silêncio
se perde na sombra. Quem pensa
ficar daqui pra lá catando
playlists, livros interrompidos
pelo enjoo da viagem avassaladora
da realidade? Se dormir nem é opção
(quem dorme nestas horas convulsas?)
tampouco morrer. Errar
de uma casa a outra, no exaspero suave
do sonho de três anos. Ficar.
Ficar também é lutar.