Erro cronológico

Quando o amor é vértebra acesa
requeimando uma verdade medonha
respondendo a escuros
facetas de alteridades recônditas.

Quando é ausente o desfecho
impaciente, febril de ver
onde morou o encontro das vozes.

Quando é cessação
algo em obstáculo a algo
e frange e duela em arredios momentos
encontros furtivos, nocautes estéticos.

Quando o amor tem mangas puídas
não pode mais tecer seu talhe elástico
e se move no egresso torpor e só se move.

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Setlist

O aspecto demorado das mãos do cego

Os desenhos intrincados de bestas na paisagem desassombrada

O derrame político e futurológico

As pautas medievais

O desagrado da rudeza na intempérie e a beleza inequívoca da ventania

A permanência solar do Big Bang no espaço curvilíneo

Os espectros da palavra

A chuva imprevista ameteorológica

Os rincões da praça catalã no livro de encadernação duvidosa

O trem cheio de vozes dissonantes

O percurso de quase 3 km entre Morro Agudo e Rosa dos Ventos

O nome das coisas

O nome das coisas

A leva de pombos mortos embaixo dos carros

O banho de descarrego

O amor avarandado

A paixão virulenta

A solidão sem lei

O sabor da pipoca

O estouro do momento

O próximo livro

O fim de Janeiro

A astúcia deste poema.

JANEIRO

Tem uma casca morta
uma asa de barata
nas coisas que escrevo
por dentro da repetida
concavidade dos pássaros
no corpo dos homens natos
na tradição, na subestimação
tem uma asa de barata morta
aos pés dos bandoleiros
no gosto do armário
num fluxo de consciência
tontos no asfalto
temos eu, você e São Januário
ou um santo que desejaria
se chamar Janeiro
temos nós, já dispersos
na folha do calendário
desimportantes vagando
pela palavra amor.

ROMANCE

Uma pele-menina
um sentimento de curandeira
o tempo estrito do mundo
eu sou a água que corre
viva na cicatriz interina.

FECUNDA

Me nomear serpente
com o sabor inequívoco
das maçãs podres
e um lato sensu
de Eva incendiada.

Cogito

não pensar em quase nada
talvez, numa agonia lenta
vítrea, pela madrugada

não pesa quase nada
o suspiro de um bicho
o desenlace a desandança

a grande conversão
da flor
em água

nestes dedos demorados
voejando a duração
o desfazer antigo

não pensar em quase nada
a morte é uma flor, disseram
eu me rendo à flor

Fotograma / Dia dois

FOTOGRAMA

Uma estrela de mãos pesadas
amparada pelas falhas
de suas suturas
corrimento luminoso
da forma
dedos hirtos
unhas como cabeças
esquivas escamas
da noite no mar
do corpo na sombra
um poema
nos meus olhos
duas granadas inertes.

DIA DOIS

O corpo
uma coerção
dentro de nós
tanta relva
com a navalha
das mãos de Deus
liberto Janeiro
em Fevereiro
minha alma
ao mar.