Ditado popular

As telhas exigem um falso andaime
um buraco coberto
um descompromisso

sobre nossa passagem úmida
as telhas nas coxas
naturalizam violência
no ditado empregado, também telha

ser cabeça sem telha
cabeça sem laje
ser só

a ausência de andaimes
quipás de casas
equipas de segurança

diz-se em lusitano
como esquecer

a força empregada escrava
nas coxas de mulher telha
tê-la repelido a passagem das estrelas

água de colônia
telha.

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Conduto

Algo em mim
morre com o beijo da idade

sinto tremerem
até os ossos dos convivas

e não sei falar
ao períneo

e não sei lidar
com o tibiotarso

não sei se sou capaz
de ouvir esse rumor de avencas

que seguem governadas
por outras menos nobres folhagens

algo em mim
é o beijo.

Consumação

Não é possível retroceder
não há lugar no solstício

nós engendramos
caos e carnificina

uma revolução
no corpo social determina

trabalho árduo e instantâneo
de reorganização:

o fogo não é a revolução
o fogo é o anzol

o fogo não é a pobreza
o fogo é o Estado

as tantas propagações
de abandonos cíclicos

pelo que não fez o fogo
pelo que fez a história.

Distopia

Deixar meus olhos vagarem outra vez pela dureza dos espaços

ressentindo o tom aquiescido das potências vistas

mas sem se deixarem cegar pela memória que arquiteta

sem se deixarem obscurecer pelo compadecimento de terem sido já pensadas.

Deixar meus olhos vagarem por dispêndios os mais diversos.

Sobretudo deixar vagarem meus olhos pelas plataformas de petróleo

compadrios, rejeitos de minério, armas tóxicas, balas ‘perdidas’

como certezas incineradas de um futuro posto.

Deixar meus olhos vagarem pela matriz indignada do presente sórdido.

Samsara

1.

São raízes impregnadas
diretrizes de paixão
emulam no seu conforto de terra
o desacerto humano
se com isso vibram
às dispensas de saber
o emudecimento da forma
no rastilho incongruente
fazem do erro
a palavra exata
a palavra anoitecida
a palavra que costuro há anos
o mesmo projeto
simbiótico da semente.

2.

Pequena e amortecida
uma fagulha do sertão
a semente se enovela
caos e cuidado
kamikaze ao avesso
quase ingressa
no paradoxo –
tremular ao sol
cheia de febre a
semente de si.

O cambista sem língua

“Não se sabe se chegou a seu destino ou se morreu no caminho”
Bahiyyih Nakjavani

Proferir sons ininteligíveis
contra rochas desfiguradas
afastando jinns e demônios
dos ciclos de samsara.
Deixar a caravana partir
com as silhuetas do deserto
na iminência dos bandoleiros.
Revisitar um beduíno
ora em ruínas
mensageiro do poço
lançado às pedras.
Expurgar com fogo
as escrituras sagradas.
Assistir à tempestade de areia
ranger sua língua sem alforje
no fundo dele mesmo.

Átropos

É sempre a última vez
que um camelo passa pelo buraco
de uma agulha
que um raio cai num mesmo lugar
que o século XX acaba
que ditaduras florescem
que Hitler, Mao, Idi Amin
se tornam meras figuras históricas
que um mito é apenas um mito
é sempre a última vez
que ele retorna, pródigo
ou que 20 anos depois
já não encontra ninguém
[como seu nome]
e que apenas imagina
parcas, mulheres tecelãs
bichos domésticos
que lhe reconhecem
e adoram
é sempre a última vez
[ou deveria ser]
que homens escalam
cercas eletrificadas
e querem reatar algum passado
com o facão
e esperam sempre
por mulheres tecelãs
ou disparam
disparam
disparam
disparam
nove vezes
contra a possibilidade
de a última vez ser, enfim
a vez derradeira.