Ganga

Silenciosa como os ventos pagãos
mais silente quando sedimentada
urde um segredo de urze
vislumbra a maioridade da brotação.

O que sonha é uma vastidão de cavalos.

Feliz, cavalga.
Um segredo que ela sabe inchar
no cardume de tudo, se vê crescer
como rio velho e sujo.

Sozinha, Ganga movimenta o mundo.

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Quase avião

O homem nissan
com travas elétricas
botox e clareamento dental
desejava comprar um carro
para colocar no rosto.
Quero um design neoliberal, disse
quase sem linhas
que supere o futurismo dos 80
quando nasci, meu estilo ainda era
pessoal, eu um menino
e não um boneco.
Foi prontamente atendido
na sala de cirurgia
pagava à vista, como da primeira vez
em que agendou o test drive
esquecendo sua primeira expedição
numa Brasília muito amarela
saiu de lá com mais de cinquenta
sensores inteligentes.

Ditado popular

As telhas exigem um falso andaime
um buraco coberto
um descompromisso

sobre nossa passagem úmida
as telhas nas coxas
naturalizam violência
no ditado empregado, também telha

ser cabeça sem telha
cabeça sem laje
ser só

a ausência de andaimes
quipás de casas
equipas de segurança

diz-se em lusitano
como esquecer

a força empregada escrava
nas coxas de mulher telha
tê-la repelido a passagem das estrelas

água de colônia
telha.

Consumação

Não é possível retroceder
não há lugar no solstício

nós engendramos
caos e carnificina

uma revolução
no corpo social determina

trabalho árduo e instantâneo
de reorganização:

o fogo não é a revolução
o fogo é o anzol

o fogo não é a pobreza
o fogo é o Estado

as tantas propagações
de abandonos cíclicos

pelo que não fez o fogo
pelo que fez a história.

Distopia

Deixar meus olhos vagarem outra vez pela dureza dos espaços

ressentindo o tom aquiescido das potências vistas

mas sem se deixarem cegar pela memória que arquiteta

sem se deixarem obscurecer pelo compadecimento de terem sido já pensadas.

Deixar meus olhos vagarem por dispêndios os mais diversos.

Sobretudo deixar vagarem meus olhos pelas plataformas de petróleo

compadrios, rejeitos de minério, armas tóxicas, balas ‘perdidas’

como certezas incineradas de um futuro posto.

Deixar meus olhos vagarem pela matriz indignada do presente sórdido.