Meu gemido gesto
meu sentido enfático da solidão
não tenho cordas com que amparar
os acenos da mulher enovelada.
Olhar para o nada
mulher, olhar para o nada
digo a língua das brenhas
sorrio vermelha, menstruada.
A boca onde fui alcançada
tornei mecânicos
os dervixes, os deveres.
Outono incide nos ares, cafés
caminhos pro cinema
interpelo mãos, olhar baixio
de bestas fêmeas –
cada vez mais fêmeas
cada vez mais feras.

Pudesse a mulher com os pardais
encontrar a rota inalterada
se também é feita de equívoco
parte de tudo que alumia
desencontro de espécies.
Um ajuntamento a outro
sobre muros, bancos, cabeças
vazias, registrando o insólito.
Ela feita para o amor cavo
não sabe distinguir humanidades
consignou seus poemas a voar
Avôhai – talvez, na década de setenta.

Às vezes basta silenciar para ouvir a soma de suas próprias vozes. Há no conjunto dessas vozes um silenciamento. Você todo feito do silêncio das vozes que construiu. Sufocado, travado na consternação de respirar. Nada a declarar com as palavras que o fundaram, da pesquisa empreendida de você mesmo no mundo por tantos anos. Você continua a desafiar a norma e a escrever, sendo agora o fantasma que percorre rastros, aclara possibilidades, revê alicerces, propõe rotas. Você escreve invisibilidades, agencia o silêncio de antigos discursos, percebe que a fuga iniciada ao despistar com as palavras o ferimento da inadequação continua na forma de um caminho em parte exaurido, onde despontaram trilhas e se reorganizaram labirintos, sons, incursões, dizeres. E, por isso, não há mais o que dizer, a não ser o incessante. Incessantemente dizer espaços, órbitas, trens noturnos, praças de guerra. Dizer o corpo preenchido de vozes, miragens, cansado de propor lucidez.

Com espírito gasto, os sapatos
corroídos da mesma estrada –
mantenha-se na permanência.
Testa os ouvidos, arrisca hematomas
a vertical é ainda um quadro
do asfalto à abertura – sílaba a
sílaba – a sibila com jeito
de quem vai chorar pelas ruas principais
na transversal, desapaixonadamente.
Apega-se aos veios profundos
da visão arquitetônica dos jogos
da passante e os transeuntes
imaginam o dia em que algo se rompe.

Família

Na corrente ininterrupta dos rios
em seus incontáveis afluentes
transportando a premissa dos pés
ao viés de uma secura fortuita
porque voar é limitadíssimo
a quem se faz da intempérie
e canoas coroam de falares indomáveis
a umidade que é a única certeza destas terras
desfeitas em águas
seus bichos paralelos
seus casos obscuros
botos, suaçunas, serpentes
lendas e manhuaçus
por ora é preciso estar longe
pra sentir a multiplicidade vagante
da correnteza anônima.

Agora é que eu vejo
que a vida se fechou sobre
uma cadeia de acontecimentos.
Isto, chamo de autoconsciência
estar fora do dentro
do próprio rizoma.
De toda forma, conectada
por lapsos mnêmicos
caos e agenciamentos.
Vou contratar uma empresa
pra me levar de volta.
Geralmente, o city tour
sai de graça.