O gosto de terra devastada

do café requentado
é pior que o do fim
de um amor

depois das seis horas
não se deve tomar café
não se deve amar

por dentro t-
udo é meio úmido.

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Entrevista a Fernando Andrade

Tive oportunidade de falar um pouco sobre o processo de composição do livro “Uma casa perto de um vulcão” e sobre intimidade, deslocamento e intertextualidade que permeiam meus poemas. No site Literatura & Fechadura, perguntas do Fernando Andrade.

Fernando Andrade – Seus poemas são atravessados por uma intimidade não apenas com a linguagem, que você domina como poucos, mas também com as coisas sensíveis, com a realidade, os afetos. A linguagem seria uma mediação para chegar a este lugar, de uma casa perto de um vulcão, onde é sempre ter ou apostar no risco, ir além de uma possibilidade de acomodação ou estagnação?

Roberta Tostes Daniel – Sim, Fernando, intimidade é a clave dos poemas, você bem observa, por onde me precipito, incapaz de me alhear das palavras, certa de nem sempre atingir este cerne, entre risco e realização, mas ciente de que apenas pela condição inelutável da alteridade, que começa já nas primeiras mediações dos sentidos com a realidade, os afetos perpassam a camada de subjetividade que transborda para a superfície, que a molda, e recebe, por sua porosidade, o mundo. A linguagem poética transige sob o acúmulo do tempo, da memória e das convenções, inexaurível, iniludível. Ela, por si mesma, não admite estagnação. Busco ouvir as frequências entre mim e o mundo.

Fernando Andrade – Há um constante deslocamento de frases (de conteúdo) quanto de um certo compasso muito calcado na musicalidade do seu ritmo. Não sei se tive esta impressão pelo cruzamentos de ritmos e velocidades dentro do poema e também por você usar muitas referências suas. Me fale um pouco disso?

Roberta Tostes Daniel – Um amigo querido me disse uma vez sobre a velocidade dos meus poemas, e creio que é um bom parâmetro. O deslocamento de frases tende a ser ágil, tanto no fluxo de um pensamento movido por um ritmo, quanto de um testemunho das sensações em versos que são pontuados segundo a própria dicção, com cortes que geralmente isolam o verso final. As referências são tentativas de imprimir ao poema sempre mais nitidez; desdobramentos; artefatos vivos. No que diz respeito à multidimensionalidade dos conteúdos, penso na imagem de um viajante que tenta captar e dar conta das paisagens à sua janela, mas ao final compõe um relato dos pedaços daquilo que viu, como um quebra-cabeças que vai sendo desmontado, até que sobrem apenas peças, borrões, sons esparsos (lembro do título de um dos poemas iniciais do livro: Puzzle, Piazzolla). Além disso, há o entendimento da palavra como uma membrana, capaz de absorver, dividir-se, romper-se em outras palavras, toar; sem que isso seja minuciosamente planejado.

Fernando Andrade – Há um certo diálogo intertextual com suas leituras que você absorve de forma muito intuitiva e natural nos poemas. Como é a Roberta leitora dentro deste processo de criação poética? A leitura é um ato político no momento que mudamos o outro de forma?

Roberta Tostes Daniel – Fico muito feliz com essa pergunta, que demonstra o cuidado de sua leitura, bem como acerta na questão da realização intuitiva, que nem por isso é de todo espontânea ou menos trabalhosa. Há uma relação de esgotamento, de absorção ao limite, de escavação constante. E isso passa primordialmente pela leitura. Leio de forma profusa, caótica, vários livros por vez, elegendo-os por afinidade, curiosidade, estranhamento. Tendo a escrever como resposta às minhas leituras, boa parte das vezes. Leituras que, por óbvio, não se esgotam num texto, numa obra, num livro. Vão transbordando pela vida, como itinerância do olhar, do corpo, do estar no mundo e responder a ele, poética e politicamente. A leitura requer imaginação, reelaboração, reescritura. Interpretar é um ato dialógico e, portanto, político, que engloba a comunidade e a herança cultural. Como leitores, escrevemos. Tendo a gostar de realizar esses diálogos intertextuais, que também servem de testemunho poético, elaboração afetiva, marcação temporal.

Fernando Andrade – Como foi a edição do livro? sinto partes que se formam tematicamente próximas, há uma certa linha de costura no decorrer do livro?

Roberta Tostes Daniel – Os poemas contidos em Uma casa perto de um vulcão foram concebidos ao longo de três anos e meio, mais ou menos. Houve um momento, em março de 2017, em que decidi imprimir tudo que havia escrito em meu blog até aquele instante. Eu tinha em mente outro livro, desde 2013, com título já definido e epígrafe do Paul Auster. Mas não dei continuidade ao projeto. Então, a partir da impressão, duas frentes de trabalho foram abertas. Primeiro, fui resgatando o antigo projeto de 2013 e consegui de pronto perceber que o fator temporal seria mesmo o esqueleto e o motor daquilo que realizava, organizando o que foi escrito ao longo de uns seis anos, ao todo. Esse livro de 2013 ficou pronto rapidamente. Mas ainda estava mobilizada por uma longa sequência de poemas que pareciam responder a demandas novas, e que também integravam temas sobre os quais minha poesia se debruça: ancestralidade, corporeidade, natureza, solitude, morte, linguagem. Entrevi, por uma fresta, aquele viajante que mencionei antes, ávido por falar de seus quebra-cabeças desmontados, das transformações pessoais, políticas, de tudo que nos sobreveio justamente desde 2013. Há um verso de Uma casa… que diz: “a política multiplicou meu corpo / variações ensimesmadas da liberdade”. Publicar esse livro seria falar também desses processos, apondo mais uma camada, de modo que cada poema tenta ser um pouco a junção dos eixos que compõem o livro. Em Maio de 2017 eu tinha dois livros prontos, mas decidi esperar uns meses pra ver se não eram apenas um apanhado de poemas. Depois mandei Uma casa… para a Patuá e tive a felicidade de vê-lo agora publicado, em uma edição tão bonita e cheia de cuidado, num ano tão significativo da necessidade imperiosa e irremediável de resistirmos, dando continuidade aos nossos projetos, sem sermos tomados pelo abatimento, face aos rumos do país. “Porque são tempos obscuros e as naturezas têm algo a dizer”. Essa é a última frase do livro, já no colofão. Precisamos dizer.

 

Gutural

Fiquei engasgada em minha própria voz
esperando os bueiros da cidade abrirem

aquela multidão submersa de roedores
e periplanetas vermelhas
em seu tipo comum, nos esgotos

ser apresentada às funduras
de uma maneira nova.

A vivissecção da voz se presta
a encontrar a anatomia oculta

de um animal inteiramente vivo
os fantasmas da carne profana

as dimensões alto e baixo
leste e sombrio

são coordenadas
e indiferentes.

Nas camadas vulcânicas da palavra

Posfácio | Uma casa perto de um vulcão

(Teofilo Tostes Daniel)

Ensaio Aberto – Teofilo Tostes Daniel

Há muitas coisas que cabem nos laços de irmandade. Irmãos geralmente partilham as primeiras memórias que os conformam como seres no mundo. Dividem histórias colhidas nos caminhos e veredas por que passaram. Repartem brincadeiras, segredos e amigos. Compartem ainda gostos, descobertas e alumbramentos.

Entre mim e minha irmã, há ainda uma partilha fundante de nossa experiência no mundo: o rito da escrita. Descobrimos juntos, embora por caminhos paralelos, esse sacro ofício de cultuar palavras. Éramos crianças, quando ela inventou sua primeira cerimônia de sagração da linguagem, num caderno dedicado à escrita de histórias – geralmente um pouco trágicas. Uma poeta que teve sua infância na prosa, redescobriu-se “um animal, no ermo / da linguagem” com a prosa poética e, por fim, assenhorou-se dos versos. Apropriei-me também desse rito brincante e, com onze ou doze anos, inventei-me poeta – somente muitos anos depois é que fui invocar as energias e os…

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Trabuconocudonosor

Uma ponte para o passado
um porte de armas para o futuro
o presente um salto no espaço

da distopia –
em viscoelástico
um ministro em travesseiro
esplêndido.

Um deus envasado
engarrafado pronto
para consumo

das familias de bem
acólitos anônimos.

Mercadores do templo
filhos do enxofre
o enxofre que serve
para limpar, para pintar

os danos causados, os pais
da chuva ácida.

Falsas notificações de crime
snipers na black friday murder

engole esse câncer, terrorista
o mundo é um lugar lindo

cativo dessa barra
que é gostar de fake news

na Barra da Tijuca.

No morro o funk continua, como se não houvesse amanhã
nem ontem. Posso morrer a qualquer momento.
Sinto o coração disparar numa disritmia inconsequente.
Se ainda fosse taquicardia, incongruente que é.
Mas essa vontade de ser exorcizada, como o título da canção
que também nomeia o que acontece ao meu peito:
o peso das coisas brutas e reais, não as sólidas
como pedras ou espantos, que se tateiam com mãos ou halos
mas as coisas de ninguém
esse ódio sortido em falta de bom gosto.
Falo de pessoas infelizes cujos corações
já não batem, pois não é possível
ter de bater panelas para que ouçam seu corações.
Não é possível se ensimesmarem nessa catarse
ignóbil, no desmantelo, amesquinhadas
abrutalhadas, vis. Meu coração não bate por elas
bate a 44%. Se eu viesse a morrer amanhã
mas amanhã eu não morro.