A vida é facho de uma arquitetura
milênios de edificação do suspense
bordando vazios no recosto do assento.
Guardada chuva obsoleta
na decoração da sala
seu objeto esquecido.
Não são gestos
que avisam da trajetória
mas as fendas no peitoril da janela
o limite de cada superfície
o mistério que se esconde
sob este luar invertido em pleno dia.
Não basta saber o que sei
e olhar o que olho
e tocar o que nem sempre posso
recalcitrante desejo
de espessura oculta
e que no entanto engendra
este sonho maior, fugidio –
vigília, fundação.

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Da gramatura de um céu
radical
da ancestralidade
dos polares
da vizinhança
das cores
das sementes
geminadas
de ser mais frágil
que eu, a te cuidar
do que não tem jeito
nem nunca terá
de um vento que retorna
à voz, obscuros
de ninguém
da sorte
do descanso
de saber respirar.

Não há nada mais precário
que dois poetas
que falam pelas bordas
de suas crenças, conjurando
aquilo que se refez
da noite ou os escalpos
de textos mansos
plenos de intenções.
Antes, as tetas e o pasto
antes, o lastro e o leite
antes o miolo do pão
formatado por mãos tensas
caindo à boca de um
prefixo: des-je-jum.
Manhã, alguma
se o desejo sorve
a fumaça e o odor
de cinzas molhadas
na névoa desta
ardidura
manifestamente
soçobra
dos discursos
salivados de muco
mar e vaidade.

Forma

Ficou um mar de sangue
Svetlana Aleksiévitch

O que tenho
o não saber
o que move
o que me desenha
o que o sofrimento petrifica
sem magia ou beleza
do que Aleksiévitch se apodera
do que Chalamóv fala
da imagem de um tempo
gigantesca vala comum
de utopia e inocência
da culpa tão terrível
de todas as histórias
ser um homem-pena
diz Flaubert
penso que me pesa
desejar como Svetlana
ser a mulher-ouvido.

Roupa íntima

Só almejo ficar quieta e
espero o sangue vingar
o sangue da vítima o
sangue da mulher que
aborta o sangue do
pássaro absorto o
sangue do trigésimo dia
não há tempo de entender
a ira invertida é pano
pra manga: posso suar
posso me enforcar
virar pano de bunda
ou camisa de força
e vênus, não, me dê tempo
me dê a mulher que sou.

Paradise now

Um livro, qualquer objeto
de tempo tardio, imantação
para estranhar e conviver comigo

desprender o choro das grades
subir a escada em caracol
das ideias que amparam o limbo.

Não me sentir representada
pedir à matéria
que engaste o presente

com a palavra-estrategista
das suturas
e das demoras –

contínuas serpentes
em maçãs envene-
nadas.