Telecomunicação

Acessasse ao longo da topografia
o satélite que era
baldia de planetas
essa coisa invertida na comunicação
dizer da parafernália a centenas
cheia de vermes das primeiras errâncias
na órbita oracular
dos pesadelos

talvez a variante de uma nascente menos extremada
que o sol
talvez o elixir da verdade sobre cruzar sem sapatos
o asfalto quente da música
talvez governar a raia do que se é
lambendo os beiços da usura do desejo

e talvez morrer molhada cheia da constelação do deserto
nadando por entre os astros essa morte de órbitas mansas
e a Grande Expansão à espreita

acessasse, geoestacionária
isso que sói ser
quiçás quiçás quiçás
dentes rajados
e ideias em flutuação

construísse o mesmo postulado de entranhas
um pouco menos árduo, talvez.

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Vidraça

Almejo a solidão
do outro lado
da fissura

vinco este rosto
ideográfico

tenho a língua cortada
cambista

em furta-cor
doendo itinerários

sou ente que materializa
as depressões do vale

que testemunha o correr dos trens
vazios

que não perfuma
um fio de estrada

almejo a fissura
nas rugas que entretecemos

observando o sopé das montanhas
o viés andrajoso das casas

o amor lá atrás
na grande confusão

onde nos movemos
e nos quebramos em primeiro plano

almejo a luz
no baixio das neves

invoco a tirania
das águas

sinto nas alturas
um idioma

que não há
só pestanas.

Ainda sobre o fogo

Nunca mais ousar fogo num poema.

Nunca mais deixar esse nó na garganta

me possuir

com a destreza dos que não têm tempo para a delicadeza

– nunca mais perder a juventude por delicadeza.

Desdizer a ordem das coisas que não acontecerão mais.

Embalar a vácuo

a dor

na seladora doméstica

congelar a carne

prenha da dor

para que não sofra embolias

pela migração de um corpo estranho

um halo no círculo venoso

na concretude do sangue

que medra os algozes.

No entanto

qualquer forma ainda estacionária

da matéria

é matéria

qualquer ausência

é presença impotente

da ilicitude do silêncio

no momento reverso

da justiça.

Trazemos um punhado oco

nas mãos

da possível pedra

lapidar

tão delgada

anterior a tudo

vinda da lumieira dos tempos

magmática

quando o archote

untado de breu

era o meio seguro

de dizer alguma coisa

por entre as giestas

ou qualquer designação botânica

que se encarregasse

do respiro

na paragem

frente à beleza tênue

de arranhar os significantes.

Secto

Porto a voz em torno de uma ideia

esqueço a multiplicidade de corpos habitando logradouros tão diversos

não há tabela das diferenças periódicas

se o que eu construo são muros em vez de – sim, barricadas, quando necessário – pontes

se o que eu afirmo só serve aos meus

a mim interessa a mim.

Zap

Daquilo que ainda sinto no ar
quando fecho os olhos
e vejo ao longe

daquilo que por obrigação
se transforma no ar que respiro

não é por fechar os olhos
mas sem fechá-los
eu veria?

Atrás de uma montanha
calcinada
e da paideia

Santa Fé dos ossos de O’keeffe

sobre o flanco Pedernal
bones, ossos de carneiro

flutuando em Ghost Ranch
a flor a pedra

take time to look

inscrito no que há de vento
dentro delas

propícias a esses ventos
formas calcárias de forças

imiscuídas en pueblo
e taos

andemos
sobre lajotas pintadas
com óleo diesel queimado

a casa de Ruy Ohtake

por pessoas que lutaram a luta armada
cultivemos

pilotis
platibandas
deques

quem sabe a arquitetura moderna japonesa
em diálogo com o modernismo brasileiro

casa feita à irmã e luto
já não o vidro e o adobe
ressoando as paisagens

mas o componente espiritual
na concepção arquitetônica

invadindo de alusão
esse espaço tinindo
do ar que eu reviro

todos os dias imantada na imanência

todos os dias uma forma
uma concepção arquitetônica

um modo de levantar o pé direito
e ver as luzes chegarem.

Bruxa

A cada dia, torno-me um tipo de bruxa secular, movida em esteira de ignomínias. Uma bruxa sem poção, imantada por ódios e queixumes protestados na dívida pública dos criadores de caso. Uma bruxa-burocrática cuja interioridade se fomenta da mácula dos dias e que transborda silêncio como se desfiasse sua língua por longos quartéis-generais. Um ser feito da matéria que lhe envenena, que usa a própria carne para fazer valer seu protesto. Antes, devota a língua. A língua que borda o suor dos incautos. A língua de que deriva o primeiro pó da guerra. A língua que é o arbítrio dos que lhe ignoram. E porque é uma bruxa, tudo isso reverberá de algum modo incalculado não só por sagões e cercanias de alarmes luxuosos, mas por onde provém sua força vaticinal e bruxuleante, força de bruxa, vagalumeada pelas sombras que lhe são irmãs. Sua força reversa de facas e guilhotinas, já antiga e sempre renovada. Sua força adversa, antimatéria para os olhos, primeira matéria das mãos, torneada por brisas ou furacões, natureza sem razão de ser, onde o sagrado exerce sua temperância porque sabe, com justeza, o que é o tempo.

O meu corpo
que é um corpo fêmeo
que é um corpo que sangra
que não é um corpo negro
um corpo é preciso dizer
que é um corpo é preciso
repetir a palavra corpo
o meu corpo
fêmeo que sangra
que não é negro
que é preciso dizer
se abrir para parir
que se viola
que se abusa
que é o corpo de mulher
mas o corpo da mulher
branca, que não labora
um terço do corpo negro
que é um corpo social
com privilégios sociais
que é um corpo branco
fetichizado porque é
um corpo fêmeo
um corpo que já amou
corpos fêmeos
é um corpo que já se nutriu
do sangue de corpos negros
é um corpo aberto
é um corpo histórico
um corpo se abre
para nascer lutar
contra o que em si
é a perpetuação
da própria ruína dos corpos.