Dilúvico

Certas situações me trazem a oportunidade de observar tipos esquisitos – entre os quais me incluo, vagando por aí, tornando insólitas as corriqueiras situações. Nada assombroso, apesar do adjetivo escolhido. Muito menos cinematográfico, na linha dos filmes de ação. Se cinema, intimista, com sua carga adensada de subjetividade, ângulos que insinuam, quando muito.

Destarte, o que há de insólito e peculiar nesse dizer sem ação é o olhar, ou o próprio desacontecimento das palavras que o guardam, um jeito agudo de ver o mundo, o gosto pelo banal a fim de escorar o profundo – canais que se abrem.

Decidi pôr o pé no mundo, por puro instinto de algo ainda não decifrado, nesse dia em que o Rio de Janeiro desabou. O mantra do Lula, de que nunca antes na história desse país blablabla, encontrou algum eco em São Pedro. E por isso talvez hoje seja verdadeira a reflexão que alguns já fazem de que nunca antes na história dessa cidade choveu tanto.

Não saí de casa motivada por sentimentos nobres ou belos. Nem pela urgência de abandonar a minha casa. Não salvei a vida de ninguém. Quis ver o mundo antes que ele acabasse. As ruas tomadas por águas e correntezas, agora amainadas. Quis também proteger uma menina do risco ínfimo de andar sozinha até o fim da rua. Estranhas razões me lançaram. E o único fato que eu narro é a sem-história de escolher um dia estranho para ir a uma papelaria.

Não fui trabalhar, como muitos cariocas no seis de abril. As ruas desertas e cheias de lama que eu vi pela tv, essas eram assombrosas, com seus vazios de fim de mundo. Vi muito e outro tanto imaginei. O pouco do que me pertenceu como testemunha ocular de fatos ou factóides foi um fim de dia invadido pelo mistério que envolve tipos esquisitos em situações inusitadas, sobre os quais depois se debruçar com imaginação.

Se eu fosse razoável pararia agora de escrever. Há muito que fazer. Sempre há. Há ruas pra limpar, quartos pra arrumar, muitas coisas esperam ser recolhidas, organizadas. E assim se limpa, se cata, se arruma. Assim se leva uma vida. A falta de sentido e o tempero que fornece o desajuste são bem visto por poucos.

Mas o que restaria de mim se eu abortasse aqui a fecundação dessas palavras? Um buraco aberto, do tamanho das crateras fendidas nas encostas pelas chuvas. Nisso não o exagero, mas lúcida e calma constatação. Por isso eu continuo, motivada pela cadência da própria chuva que também não se interrompe de chover. E porque eu de certa forma chovo, porque esse dizer se infunde do espírito da observação ou mesmo delira, é preciso que eu siga.

Chegando à papelaria, após pular poças, sentir o viço de ventar com a chuva, gritar por quem não me ouviu, finalmente alcancei aquela a quem ofereci a frágil proteção de meu ser molhado, atordoado com o barulho de um alarme acionado a cada entrada ou saída de clientes, fugitivos da chuva.

Fiquei ali, inquieta, querendo o acontecer das coisas, não a dança enfadonha de mãos passando as páginas dos livros, a luz da máquina copiadora, a camisa molhada do dono da loja; um obstinado, único a abrir o comércio nesse trecho da rua.

Acentuada a chuva depois da breve trégua, entra o tipo esquisito, meu subterfúgio da vontade de escrever, um homem improvável pela sorte de coisas levadas na sacola. Leva consigo livros e café, uma carteira encharcada, moedas. Jaqueta de couro, um tipo perdido, como eu. Retira da carteira o documento, faz o que deve ser feito, diz o que deve ser dito, sai do estabelecimento com a sua cópia. Vai embora do mesmo jeito que entrou, envolto em mistério.

Que travessias o levam? Por quem a loucura de livros e café na sacola úmida? Não é um insone. Também não foi trabalhar. Me parece que vagou nas horas desse dia pela cidade, colhendo impressões de percurso para depois emaná-las na fumaça do cigarro que eu não vi com ele. Não me responderia com “passei a noite acordado, abandonei o carro por aí”. Talvez dissesse: “eu andei muito, mas muito pouco eu vi”.

Não é bandido, não é moço, nem se assemelha a um vizinho. Algo me diz que vagou muito até chegar aqui, nessa loja que exibiu durante muito tempo a placa de “vende-se”. Não foi vendida. Os donos se mantiveram os mesmos: secos, educados, calados donos que abrem a sua loja no dilúvio. Tão chovidos que somos, dilúvicos. Eu, o tipo estranho, os donos da loja, a menina por quem gritei. Todos sem saber de si os destinos.

Muito de invenção? E se eu capturo o sumo do que não se diz? E se o homem, estranho tipo que inventei, mora por aqui mesmo, e compra livros no dilúvio para inspirar seus filhos e depois mantê-los acordados com café para as muitas histórias que virão?

“E se…?” E se não há “se…”?

Ele vai embora e me leva a história. Eu vou embora e o levo comigo. A chuva não lava a cidade, a chuva a maltrata. As sirenes já esparsas invadem a rua com o som do desespero que elas têm. Muito há nos transbordamentos que não escorrem como as chuvas.

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Pequeno manifesto

Não compactuo com toda sorte de pessoas que renegam seus martírios para auferirem a leveza como status. Leves é que não são os seus acordos com a consciência. Incongruente como um ateu a entregar ex-votos, quem não lima o coração não reconhece o próprio sangue que lhe é seiva da vida.

Complicada a paz de quem se expropria de si, exibindo o verniz nos sorrisos, alienado de suas funduras, por temor de esquadrinhar labirintos. Que não esqueçam: do abismo vê-se o céu!

E se a vida, assim como a alma, não se afiguram só tensão e densidade, também não se definem pela inabalável paz de espírito.

Há grilhões perfazendo voos, furúnculos nas carnes tenras, prazer aterrado à dor, obsessão travestida de certeza, uma tonitroante infinidade de gemidos ecoando em quem diz são.

Não aceito que escorracem os temores, as doenças, a virulência dos possuídos. Há que se ter paz mas também que se aceitar perdido, sem desfecho, desfalecido.

Não por um modo poético e portanto fugidio de remetar às loucuras. Preserva-se de algum modo quem se abisma, encara seus bichos arredios antes que eles lhe abjurem. Pode não ter volta. No entanto, muito mais fácil retornar quando se conhece o caminho.

Necessário devolver aos muros o seu lugar. Porque em algum momento estivemos todos em cima deles. Há que se respeitá-los como também promover-lhes a derrubada, impregná-los do bálsamo satânico da discórdia.

Encerrar-se num cômodo vendo-se mundo, apequenar-se no infinito das massas, sofrer o vazio e a imensidão de Deus, dogmatizar-se. Ser acometido de razão.

Não corroboro a idéia de que viver seja fácil. Nem por isso morreremos aos 20. Também não é simples, mesmo sendo a simplicidade um atributo da sabedoria de viver. Viver tem muito do flagelo da paixão.

Eu peço coragem. E a coragem de ter medo. Que ninguém me diga que é preciso sempre acreditar, ser contente full-time. Esse tipo de harmonia obscena, constrange, porque é qualquer coisa de invenção, que não artística. A harmonia tem de vir como música, encadear acordes. Ser um acordo íntimo, não uma imposição.

Ela costuma acontecer com quem se particulariza, depois se funde como humano ser. Com quem se busca com obstinação, e com nuances. Amigo não complacente das próprias fronteiras.

Travessia

Ecoam lentos certos cantos, não obstante a ânsia por ouvi-los. Devoram. Devem ser decantados. Em nome do que? Do tom, do som, do prazer.Eu sigo riscando o que digo. Demolindo frases, encurtando sentenças. Só assim têm reverberado. Tudo áspero, imediato. Mas o desejo é de enchente. Continuidades que não chegam. Contiguidades que eu ataco. E se eu escrevo “eu te infinito tortuosa”, isso é uma travessia. Folhas que se consomem. Flores fósseis que despertam. “Azucrina o teu cabelo de égua”. Ecoa, lento ecoa o canto. Demora maré que me sangra.Acontecendo na vida os meus sussurros. Pra me livrar do tormento, pela salvação, pelo fetiche. Jogo de azar. Mormente o pranto. Esgarço a teia do dizer movendo brisas enfurecidas.

Renascimento

Olha-me, em estertor, uma mulher: ardente, vital, um rasgo de entranhas. Como se, numa selvageria, arrancasse do peito um coração, e no lugar da mulher soçobrasse o vermelho delirante, pulsando de temor o divino em si. Eu lhe digo latejâncias, e com o vigor de quem ama, comunico-lhe os limites violentos da vida e da criação. Sôfrego, dum fundo de abismo, um coração quase me mata à queima-roupa. Pálida a mulher, fenda de mim, respira-me, até que poeta, renasce do sumidouro da morte simbólica, aturdida e fertilizada por seu próprio encanto. A ponto de proceder lirismos, ela me abraça. Por fim entende que o seu nome ressuscita.

 

Transfiguração

Tola, no espelho. Devotada aos cabelos que as mãos anelam. Salva de me perder, de me dilatar no imponderável. Tola. Nunca tola. Um ser anônimo se pertence, pálido martírio.

A figura que eu sou, no espelho, louvando os cabelos, vê a si, de dentro. Mansidão. Estrela. Depois o grito escuro: mais que ave assustada, sagrada ao manto do voo, enfrente a alma! O amor me assevera doce, da neblina dos tempos.

Rubra de mim, arrepio e me cego pra vaidade cativa de mulher nas mãos de Narciso. Rica de nudez, o alvéolo do peito repousa o veneno à boca do sonhador. Que ondas? Que ciclos? Circunvoluções. Ao redor de quê? Corpo de aparições, revoadas. A mania de evocar os santos, de morrer nas paisagens.

Ancorada na noite, à beira de um mundo, suave na tormenta das palavras. Lavada pela chuva que rega minhas preces. Varrida da imagem de menina, transfigurada na mulher que lanceia seus anzóis. Deus me cabe ser há muitas mortes.

Cálidas torrentes de impossíveis deleites. O canto pastor me leva à paixão por cumes, arvoredos. Sonho que traduzo com o feitiço, com a sinestesia das palavras. A que preço? A que negrume de céu?

Secreto de mim o pranto, pendor de viver à sina de nuvens. Vivo à sorte de amar, à tradição de ter amado, ao brilho ousado de me desreconhecer perante o espelho.

Me encontro em desencontros vastos, chuva faminta depois da prece. A flor derrubada de Outono. Úmida, não apodreço, porque já outra sou.

Não me cega o que me espera com seus sóis. Me invade o cheiro salino e quente da aurora. Verdade atestada pelas águas do mar. Meus olhos dizem.