(dadaísmos)

Você que é leve como chuva ácida; sulfura buracos no ozônio. Estufa um salto de asa-delta sem asa-delta: asas de chumbo. Rumo ao sol.

O sol quer o meu câncer. No fogo, carrossel de Apolo, inferno siberiano: arrepio que me causa a trinta e seis graus, terceiro milênio.

Polução devasta o planeta inundo. Roçados onde os seus desamparados. Peito, pentelho. Baba por fazer; bagunça no enredo.

Éclogas, ecologias. Dilúvio e carnaval. Mais de sete bilhões de palhaços no salão.

Chove no ecossistema das pernas. Chove sangue. Na calha onde sua chuva de enxames arrebenta a minha cara. Conto as gotas num buquê estridente.

Bebo o arroio dos olhos. Bebo tudo. Ébrio peito sanfoneiro, resfolega a lira suntuosa.

Uns minotauros machões. E abelhinhas transtornadas sobre o manjar dos deuses: as crianças. Faz dodói na pele-labirinto.

É um belo momento: eu me afogo na enchente e chove. Rio, de ainda morrer, Amor.

Dentro do sonho

Tudo um cogitar dentro do sonho.
Silenciada pela noite, miro o teu canto que me diz.
O teu nome, o teu nome eu não digo.

Tudo que eu dissesse fosse largo como o mar…

Debaixo de uma trança é que eu me visto.
Me azucrinas com teu cabelo de égua.
Eu te infinito tortuosa, beirando umbrais.

Abre-se em mim a ópera, uns cantos da viração.
O véu do teu rosto desvelando o meu.
Insanos como uma floresta.

De tudo que me arde caberia na canção:
Orbitar, cor de sangue, a palavra cheia de vertentes.
Não sendo nuvem, levitar no faz de conta da ocasião.

Teus olhos imaginando minha boca…

No mais, ser árdua. Os meus modos viventes,
Sorridos, lacrimosos, cotejando sensações
Do frio e do quente, fruindo
A arrastada música dos ventres.

Áspera tecitura: alinhavar os delírios…

Notas

meu olhar perante o espelho, rodeado de sombras, desvanece a vivacidade do ontem. pura e livre, aconteci. aí veio segunda feira.

o de sempre. rota, rota, rotina. o silêncio, que é quase sempre um deleite, agoniza em dias assim, desmerece gemidos, estrelas.

afoita, incinerei os véus da tarde. havia o tempo. o tempo eu comi. por afronta. varri o incômodo pro enigma das palavras, que me abraçam com seu corpo de relva.

esqueci as que não dizem desmesuras, viés da paixão. despertenci, sorrindo, aos olhos dos outros.

então ontem, que era mar e suas latências ventando, estive, pura e livre, acontecida entre ecos de olhos que se disseram. paixões de ventar versos. ventarei mais, e sempre.

trouxe para mim uns livros bons, de sol e lua. esses franceses.. ah, os que queimam! noir ardidos. éluard: seus últimos poemas de amor devoraram meu corpo de caçadora e presa.

caço, prendo. a inquietude hoje me altera os nervos de um jeito que, inclinando pra onde correm as cascatas, abrigo as fontes.

descobri que já rejeito o silício nos olhos. e que, brancas, as pernas povoam o mundo, ao sol das quatro. lânguidas, gratas.

o suor nos cabelos não mente: ardente o ouro da primavera. aqui, inventam que é bom a brisa de um ventilador.

por hoje: rejeito o que não é rocio.

persiste, se não o roçar morno que se entende por flor, a morada de claro-escuros vivendo nos olhos que clamam.

cintilâncias: rápido tempo de pertencer. protesto e parto.

desatinada, a léguas daqui, onde me querem branda.

Espirais

– Eu gosto da sua voz.

– Mas eu não sei cantar.

– Eu gosto dos recônditos dela. De como ecoam os plurais, a maneira como a língua toca…

– O silêncio, o céu da boca? Não brinque com isso.

– Como sabe o que eu ia dizer?

– Não ia dizer. Eu que me antecipei porque senti vontade de me ouvir pra derrubar suas convicções.

– Só as agravou.

– Confesso: quanto mais baixo falo, mais me alcanço. E gosto.

– Alcança uma mística voragem, posso presumir. Liberdade morna, que se perde cotidianamente, convencionando modulações tolas.

– Exato, meu bem. Meu tom é de profundis, sem o qual eu sou só…

– Uma criança assustada.

– Como sabe?

– O que você é agora, fingindo surpresa.

– Eu gosto dessa intimidade forjada entre nós.

– Não é forjada a comunhão de nossos timbres.

– Ah, mas você tem voz de Outono, arrastando o dourado nas folhas, toda maviosa.

– Falou isso como um lamento, bonito, doce.

– E quando ri, faz rir o mar.

– Continue…

– O que sai da sua boca tem ritmo, atabaque, é ancestral. Cheio de desvãos, inflexões harmônicas.

– Gostou do jogo.

– Não é jogo, é música. Eu, sim, criança assustada, lembra? Sinfonia pálida. Sob o vinho ou sob a chuva, muito profana, a minha voz enverga pra puta, sem escalas. Por isso não levo a sério o que diz sobre ela.

– Mas eu gosto, já disse. Dos subentendidos imperando, como que medo, como que espanto. Incerta e silente, ela não se revela.

– É só jogo de palavras. Metalinguagem pra me levar pra cama.

– Não é jogo, é música, você disse. E não é metalinguagem, é metafísica. A metafísica da sua voz me interessa mais do que levá-la pra cama.

– Não nega?

– Não nego. O desejo. Como não nego a música. Nem o silêncio.

– E o que há entre música e silêncio? Entre desejo e cama?

– Sua voz.

– Minha voz testemunha a relva molhada onde recosto meu corpo sob a chuva.

– Chuva de novo. Onde leu isso?

– Eu inventei.

– Por que a chuva?

– Por que a minha voz?