Trilha sonora de esperar Minas

Prestes a adentrar Minas, que um dia se definiu pra mim como fundo desejo da paisagem, enfrento musicalmente a chuva que me espera. Clima-tempo de clima-desejo de ventania. O despejo da vontade sobre horas nuas, à caça de ternuras. Afundar na piscina dos resgates, fazer trilha de apostas, devorar vontades das delícias mineiras. Vou pro sul do Estado, descansar onde não há mar, com um jeito de marujo que se lança na travessia atlântica. Quiseram sol, a previsão é de chuva. Simulo um pesar, que é real, em nome da partilha, mas há no fundo de mim um sorriso úmido, crente no destino, que escreve sobre o barro a amplidão do horizonte. Zélia Duncan canta a minha vontade certeira, embora discreta, para os próximos cinco dias.

Delírio oceânico

Maravilhada com o alarde na rebentação, escapam ao meu entendimento suas palavras, fundas superfícies. Nado por elas, como num fado de línguas em acorde. Você me diz algo como o azul do céu-mar, invadido de vento e areia. No enquanto, rabisco agônicos retorcimentos: brejeira a festa do mato, obstinado frente ao delírio oceânico. Arrancado do tempo de crescer, ele reside no quase extinto das apoteoses atlânticas. Cato palavras que contêm os sussurros – mato, morro. E o vento desaba no penteado da moça. Inclino para a tempestade potencial. Voam os vestidos, dádivas como o sol. Você quer abrir a gema radiosa, despejá-la no leite da pele: melaninas trabalham atônitas para libertar a mulata retida no mármore de Rodin. Bendigo o espelho carnavalizado de mim: seu corpo estendido no varal dos meus olhos. Eu, pálida ofegância, embrulhada na sombra, aguardo o ritual de libertação do bronzeamento. Resgato palitos de sorvete, coisas retirantes – aqui lamberam, penso em combustão. Espocam hoje, fogos de reveillon, estes flashbacks, porque inverno, e no domingo estivemos ausentes de brilhar rabiscos agônicos e murmurejar fundas superfícies. Teu corpo estendido no varal dos meus olhos: lembranças de planaltos perfazendo litorais. Violável o tempo da intimidade, rasteiras entranhas. Desabo vento no penteado da moça, voando com os vestidos, extinta de apoteoses atlânticas – acordo de línguas. Feito mato, morro. Eiras nos tornam iguais, beiradas de fundos enigmas. A festa incendiada de amar, rearmar os motivos. Intacta a beleza das mãos que tocam meu rosto desde a primeira vez. Tremia, revolucionária alma, panfletando meus olhos vermelhos de tanto chorar. Por entre a cova dos seios, renasci dourada de verão, eu que me inventei na tempestade. O sertão que me faz pontes. Os estios que me sangram mais que rios. A marcha-maré, que abre furúnculos, devolve flores. Abscesso de querer conotar. Lembranças. Volúveis as palavras, orifícios de verbos. Reencontro nestas distâncias o todo dia da nossa cama povoada das eternidades que sonhamos. Me apego aos desastres. Veja – questão de permear letras – eu os apago.

Revérberos

Leitmotiv das marés
Os vitrais cantam tua luz
Compungidos pelo brilho que refletes
Os espelhos, os espelhos te louvam.

Como se a medida de existir fosse um clarão
Cada raio se arvora a renascer.
Meu corpo de terra reverbera enchentes
Eu, os vitrais, espelhamos a tua grandeza.

Luminosa, exaltada, te vejo
Portando o alabastro dos meus sonhos de menina
Que te olhava, fendida nos teus ciclos
Cravada por sombras que entrevia se o

Velocímetro indizível, fugo espaço de correr
Não te preenchesse com os gestos da luz.

Vagavas muda, pálida ofegância
Grávida de uns sonhos entornados
Se a grande flor não te nutrisse
Solar, da energia de viver.

Por ínfimo que seja este canto
Recebes de mim o dízimo
Do amor que inspiras

Em mim, humanidade,
Para quem és
O símbolo e o satélite
De um Bem maior.

Renascimento

Olha-me, em estertor, uma mulher: ardente, vital, um rasgo de entranhas. Como se, numa selvageria, arrancasse do peito um coração, e no lugar da mulher soçobrasse o vermelho delirante, pulsando de temor o divino em si. Eu lhe digo latejâncias, e com o vigor de quem ama, comunico-lhe os limites violentos da vida e da criação. Sôfrego, dum fundo de abismo, um coração quase me mata à queima-roupa. Pálida a mulher, fenda de mim, respira-me, até que poeta, renasce do sumidouro da morte simbólica, aturdida e fertilizada por seu próprio encanto. A ponto de proceder lirismos, ela me abraça. Por fim entende que o seu nome ressuscita.

 

Espirais

– Eu gosto da sua voz.

– Mas eu não sei cantar.

– Eu gosto dos recônditos dela. De como ecoam os plurais, a maneira como a língua toca…

– O silêncio, o céu da boca? Não brinque com isso.

– Como sabe o que eu ia dizer?

– Não ia dizer. Eu que me antecipei porque senti vontade de me ouvir pra derrubar suas convicções.

– Só as agravou.

– Confesso: quanto mais baixo falo, mais me alcanço. E gosto.

– Alcança uma mística voragem, posso presumir. Liberdade morna, que se perde cotidianamente, convencionando modulações tolas.

– Exato, meu bem. Meu tom é de profundis, sem o qual eu sou só…

– Uma criança assustada.

– Como sabe?

– O que você é agora, fingindo surpresa.

– Eu gosto dessa intimidade forjada entre nós.

– Não é forjada a comunhão de nossos timbres.

– Ah, mas você tem voz de Outono, arrastando o dourado nas folhas, toda maviosa.

– Falou isso como um lamento, bonito, doce.

– E quando ri, faz rir o mar.

– Continue…

– O que sai da sua boca tem ritmo, atabaque, é ancestral. Cheio de desvãos, inflexões harmônicas.

– Gostou do jogo.

– Não é jogo, é música. Eu, sim, criança assustada, lembra? Sinfonia pálida. Sob o vinho ou sob a chuva, muito profana, a minha voz enverga pra puta, sem escalas. Por isso não levo a sério o que diz sobre ela.

– Mas eu gosto, já disse. Dos subentendidos imperando, como que medo, como que espanto. Incerta e silente, ela não se revela.

– É só jogo de palavras. Metalinguagem pra me levar pra cama.

– Não é jogo, é música, você disse. E não é metalinguagem, é metafísica. A metafísica da sua voz me interessa mais do que levá-la pra cama.

– Não nega?

– Não nego. O desejo. Como não nego a música. Nem o silêncio.

– E o que há entre música e silêncio? Entre desejo e cama?

– Sua voz.

– Minha voz testemunha a relva molhada onde recosto meu corpo sob a chuva.

– Chuva de novo. Onde leu isso?

– Eu inventei.

– Por que a chuva?

– Por que a minha voz?

Paisagens n’alma

Meu rosto relembra suas mãos na distância do contato. Ele é a terra para o seu plantio. É a promessa da flor que você colherá. Colhe, pois, flores de mim, nas faces encharcadas de poesia e lágrima. Colhe esse viver cheio de pranto e medo indócil. Vele por mim, pelo meus ventos, que remexem crinas, destrançam cabelos, espalham as sementes que sonham com pétalas. Me ensina a fertilidade do sorriso. Vem sazonar meus frutos, cultivar minhas plagas, chover sobre mim. Vem pra me fazer sua. Vem que eu preciso tanto. Vem que há relâmpagos, e os granizos ferem. Há um assombro na menina dos meus olhos. Há um rio nascendo nesse castanho cheio de amor. Transbordando a alma, nutrindo meu amanhã. A vida me arremessa frágil sobre os campos do mundo. Sem grãos, sem sementes, sem terra. Só com o sonho da flor. E com o sonho da flor eu faço um jardim na sua alma. O sonho e a flor você colhe com suas mãos de ternura. E o impacto de tudo o que não sei e sinto fortemente nas artérias e no incorpóreo ser, faz na minha alma uma paisagem a mais.

Graça natural

Graça natural de quem possui uma delicadeza. O efeito dela sobre mim, compondo em meus dias sinfonias de acordes perfeitos. De acordo com o coração. Felicidade que inaugura com flores o presente, apruma o olhar para o futuro, quer para sempre, sabe dentro, mora onde há chama, deleita-se de bem querer. Quase consigo entender como uma grande alegria também dói. Devagar, surdamente, como ser humano e querer ser anjo. Como ser anjo e desejar ser terreno. É sublime e carnal. Depois dessa dor que não é bem dor, o corpo aquieta. E então, sorrisos. Apenas sorrisos. Dentes, olhos, duas bocas, alma presa à alma, e uma certeza milenar. E o que mais sei, se não que amo? Amo. Logo, sou dela. O que mais sei? – pergunto-me. Registro que sou esta, mulher atravessada de carinhos, de novos sóis, consagrada ao que restou de mim, nesta fusão de sentires, neste enroscar de pernas, no que nunca mais é abandono.