Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018) | Vídeo 6

A casa é um pântano, nada ensina que a casa é um pântano

Último vídeo da série de vídeo-poemas gravados para o lançamento do livro, que chegou ontem da gráfica, há um mês exato da divulgação do primeiro vídeo. Ontem, também, tive a alegria de ter dois dos meus poemas lidos pelo querido Eduardo Lacerda, editor da Patuá (um dos poemas também foi gravado por mim e está na playlist do meu canal lá no youtube). Nestes tempos, precisamos sobremaneira dos encontros, os encontros que se dão por todas as vias do afeto: aqui, nas ruas, nos livros, nos corpos. Meu afeto e gratidão a todos que me ajudaram a compor esse livro (Fabiana Turci, Teofilo Tostes Daniel, Marisa Tostes Daniel, André Felipe da Silva, Caio Resende, Leonardo Mathias, Ricardo Escudeiro, Eduardo Lacerda), direta e indiretamente, desde as experiências fundantes, até o desdobramento no que veio a ser Uma casa perto de um vulcão. Espero que ele se reverta em pouso, aspereza, diálogo, silêncio, dicção a quem se articule com ele. Estarei aqui, para ouvir e tecer. 

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Apud Joyce

Existe algo na dimensão de amar
e mudar as coisas de lugar
existe algo tamanho.

Que me interessa mais, mudar
para perto das coisas, o coração
perto e selvagem.

Existe algo perto e selvagem
entre musgo e cavalo
ponte e queda

que muda e muro
e vira e declive

entre palavra e música
Belchior e Clarice

que acena e canta
um rosto um repto

sucesso
fracasso

alguma curva no caminho
segurança irrefletida de uma fera

só. abandonada. feliz
perto, muito perto do coração

mudando e amando as coisas
que interessam mais.

O mundo é repentinamente o areal vazio
sossegada na mansidão de colchetes
à estratégia de minhas teias, a perder a espessura

ando rouca, dando corda ao delírio
montada na nudez das naus
rouquenhamente esquecida em outonos
sossego de queixar-me, de apartar-me do que vejo

matéria de enredos nos dínamos do escafandro
concede-me o tormento de encolher-me
sobre a torção exata dos possessos
manifestamente debruçada sobre a orla, sobre a sede

capino, cubro-me de flores mortas
faço das mãos o primeiro hálito
e dou à boca o código da noite

criptografia de arcanjos
projeta sobre meu sexo a dizer-me: perdão.

Salmo

Toda opressão e toda glória será dada
ao capitão e aos homens de bem
assim na terra do coronel
com a cabeça de 150 milhões
que não votarão nele
nos vemos no capitel
da Catedral de Brasília
de onde pendem
como enforcados
três anjos maciços.