Minha vida vai estar numa mochila
a acompanhar dois hemisférios
a nadadora mergulha num braço
um traçado sutil faz menção da água.
O que o amor evapora são espaços
considerar o mundo com as supernovas
do quarto, da casa: o verde água
o vermelho rubi, o azul sempre sem nome.
Sempre algo se conquista no silêncio
se perde na sombra. Quem pensa
ficar daqui pra lá catando
playlists, livros interrompidos
pelo enjoo da viagem avassaladora
da realidade? Se dormir nem é opção
(quem dorme nestas horas convulsas?)
tampouco morrer. Errar
de uma casa a outra, no exaspero suave
do sonho de três anos. Ficar.
Ficar também é lutar.

Sociologia

Prolonga-se desde o mastro
marxista, o tombadilho

condição de morte do movimento
sem a qual, porém, não há condução

superestrutura pungente da história
de avanços escravistas
ultramaresia cheirando a extermínio

onde o abissal não foi o canto das sereias
mas o monstro com a cara do progresso

retornando da anterioridade do homem
impossível, o rosto mais valente dos dinossauros

valia ter se perpetuado sobre nós
ele no seu próprio navio

carcaça imanente contra o asteroide.

Pesquiso gestos
Meu nada consta é um colibri
Sou vítima da enumeração do meu tempo
Troco de roupa com transeuntes
Carimbo, por exemplo, Agnes Obel
Meu certificado de quitação com a tarde
Ganhei terno ganhei gravata
Pus minha vida em leilão
Sobretudo lentamente feri

porque atravessavam portas comprometidas com outra espécie de lógica

não eram seus corpos matéria suficiente para

atravessavam pela insuficiência, portanto, com o mesmo conhecimento de um recém-nascido

a mesma fragilidade, portanto

não eram ornamentais nem rosas de pedra, eram outra coisa

surgiam ao alcance da voz; extinguiam-se num mesmo ponto, sujeitas à deterioração e ao abandono

saltavam como pulgas, campos imensos, centenas de milhas; demarcação pertinente aos aviões, pensavam

no que pensavam, perdiam-se dos destinos desenhados no dorso dos dedos cansados da operação

isto de fiar ruínas como quem invoca as portas e os quadrantes

como quem salta lógicas desaforadamente

feito quem fotografa coisas possíveis e as consagra

na calha que escorre a água da chuva ou o sangue do abatedouro

lunar – pele
a ser riscada
reflexo volitante
no êxodo amarelo
lugar – pele arisca
sob o estado de sítio
do seu andar

No recanto desta sombra
qualquer coisa como a muralha
que a quase tudo encobre
sobre o que precisa ser dito.
Antes, com movimentos ritmados.
Algo sobre Rancière, as políticas da escrita.
Sobre, talvez, assumir seu espaço
na comunidade: tomar parte no desvio.
Como desviante, tocar superfícies desviantes.
Pele que anula organicidade de papel
que assume possibilidades de pele.
Porosidade jamais murável
que se adentra na dor de tecido vivo
muralha viva, pode ser, muralha que
caminha com quantos buracos na cabeça?
Tudo nessa jamais hermética edificação
escorre para dentro desta sombra
onde, recostada, trago feito fumaça
antiga, deslocada. Somos, sim
os eflúvios uns dos outros.

Rumorejar alegriazinhas
conduzir ao bom estado de espírito.
Raivosa:
Eu vou pra Maracangalha eu vou…
O caralho!
A voz de um impossível
ou melhor, de um deus possível
nascendo naquelas águas
com o sal das lágrimas.
Não esquecer das lágrimas.