Alegações

O poema fura o silêncio.
Esgota um projeto de nação.
Faccional, entope os bueiros da cidade.
O poema é esse gosto pela dinastia
falida das palavras alinhavadas pelo fel.
O poema explode a metáfora
mas insere no ritmo sua tensão maior.
É, sobretudo, iminência.
O poema perambulando na quadra da morte
desafiando o buraco causado
pelo som, vibrátil, concêntrico
dizendo-se ilharga das folhas
e percepto vegetal.
O poema é você de frente, de costas
pro silêncio continental
de um quarto de século
no spacatto e no sopro
de um bailarino enfurecido
que se tumultua ao sabor do gesto –
o poema não presta e você não presta
mas tudo nele é movimento: te concerne e te preza.

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Ganga

Silenciosa como os ventos pagãos
mais silente quando sedimentada
urde um segredo de urze
vislumbra a maioridade da brotação.

O que sonha é uma vastidão de cavalos.

Feliz, cavalga.
Um segredo que ela sabe inchar
no cardume de tudo, se vê crescer
como rio velho e sujo.

Sozinha, Ganga movimenta o mundo.

Quase avião

O homem nissan
com travas elétricas
botox e clareamento dental
desejava comprar um carro
para colocar no rosto.
Quero um design neoliberal, disse
quase sem linhas
que supere o futurismo dos 80
quando nasci, meu estilo ainda era
pessoal, eu um menino
e não um boneco.
Foi prontamente atendido
na sala de cirurgia
pagava à vista, como da primeira vez
em que agendou o test drive
esquecendo sua primeira expedição
numa Brasília muito amarela
saiu de lá com mais de cinquenta
sensores inteligentes.

Ditado popular

As telhas exigem um falso andaime
um buraco coberto
um descompromisso

sobre nossa passagem úmida
as telhas nas coxas
naturalizam violência
no ditado empregado, também telha

ser cabeça sem telha
cabeça sem laje
ser só

a ausência de andaimes
quipás de casas
equipas de segurança

diz-se em lusitano
como esquecer

a força empregada escrava
nas coxas de mulher telha
tê-la repelido a passagem das estrelas

água de colônia
telha.

Telecomunicação

Acessasse ao longo da topografia
o satélite que era
baldia de planetas
essa coisa invertida na comunicação
dizer da parafernália a centenas
cheia de vermes das primeiras errâncias
na órbita oracular
dos pesadelos

talvez a variante de uma nascente menos extremada
que o sol
talvez o elixir da verdade sobre cruzar sem sapatos
o asfalto quente da música
talvez governar a raia do que se é
lambendo os beiços da usura do desejo

e talvez morrer molhada cheia da constelação do deserto
nadando por entre os astros essa morte de órbitas mansas
e a Grande Expansão à espreita

acessasse, geoestacionária
isso que sói ser
quiçás quiçás quiçás
dentes rajados
e ideias em flutuação

construísse o mesmo postulado de entranhas
um pouco menos árduo, talvez.

Vidraça

Almejo a solidão
do outro lado
da fissura

vinco este rosto
ideográfico

tenho a língua cortada
cambista

em furta-cor
doendo itinerários

sou ente que materializa
as depressões do vale

que testemunha o correr dos trens
vazios

que não perfuma
um fio de estrada

almejo a fissura
nas rugas que entretecemos

observando o sopé das montanhas
o viés andrajoso das casas

o amor lá atrás
na grande confusão

onde nos movemos
e nos quebramos em primeiro plano

almejo a luz
no baixio das neves

invoco a tirania
das águas

sinto nas alturas
um idioma

que não há
só pestanas.