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Vegetabilia

Tensiona esse fio frio
até que a folha chore
dessas mãos que seguem costurando
antes ou depois de tocar
(a si mesma?) na forma
da colheita – um corpo-morada
se acalanta em asa
na claridade de uma língua composta
por única palavra.
Se renasce no silêncio, se é ainda
rudimentar (o que se enuncia
se tece sangue, noite) ninguém sabe
se faz rasgo ou ramagem.

 


poema em diálogo com a belíssima pesquisa realizada pela poeta Raquel Gaio, intitulada cartografia do perecível. se trata de tanger as mortes, as densidades, espessuras da memória, do acervo pessoal, da escritura. em recente postagem, Raquel fez um apanhado de poemas meus, de Marceli Andresa Becker, Maria Carolina de Bonis e Carla Carbatti, que tocam semelhantes densidades do que ela tão bem denominou “mulheres fiandeiras, corpo vegetal”. cabe resgatar o comentário de Carla Carbatti (no facebook): “a folha que cai, a folha que morre, a folha que renasce no dedo inox: o fio e frio das mãos na terra: elas: corpos vegetais entretecidos de ritmos sanguíneos: uma língua clandestina falada entre silêncios entre mênstruos entre feridas. sim, a cartografia é esse infinito que perece nas solas dos pés, esse perecível que infinita o caminhar .” mais no site És uma maluca.

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Between light and nowhere

O sentido de escolha
é determinado historicamente

ou somos apenas traços
de nossos desejos entre
possibilidades e escrutínios –

meu fantasma e o teu sorriso
não se coadunam aos tempos

sou a expressão que melhor
se encaixaria em teus anjos

dançar com muitas sobras de eternidade –
hope there’s someone

não espero.

 


a partir da música Hope there’s someone remixada por Avicii, na voz de Linnea Henriksson, disponível aqui.

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Olhos

Em vídeo, meus olhos
estão quase sempre caídos.
Estranho, meus olhos
a curvatura ascendente neles
fazem lembrar os olhos de meu pai.
Perdi, acho que perdi
aquela pequena foto, aquela
meio 3×4: uma criança de meses.
A foto de meu pai que eu ganhei
quando também era uma criança
muito mais velha, uma criança
de muitos meses subsequentes.
Eu sempre estranhei, sempre
um bebê numa foto 3×4.
Mas só reconheço agora.
Reconhecia gostar
de ter os mesmos olhos que ele.
As bochechas fartas, o rosto redondo
o futuro que eu inventava
augúrio desenhado até os 32 anos.
Agora, que sou mais velha que ele
meus olhos, em vídeo
estão quase sempre caídos.

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Quando me assisto no escuro
ainda não é noite
tomo a dianteira na mansidão
com que o terror canta
 
um animal noturno
um animal político
taciturno se desprende
onde pude ser mais quente.
 
Esqueci os pequenos afagos
das coisas vãs
porque a voz de mulher crucial
desponta em cada mulher
 
no movimento uterino da galáxia.
Formulo um tanto exacerbada
esta contração que arca
 
com a estrita observância
do que vive verdadeiramente.
Danam-se a regrar
 
com regras machas
danam-se a proteger mulherezinhas
a dizer o que veste uma mulher
 
como uma mulher ama
se uma mulher flutua
se lhe cabe o posto infame
de mulher nua.
 
Se o que houve neste escuro
se corrompe
feito a borrasca de um desenho cruel
e necessário
 
eu que me observo na difícil
duração desta mudança
e me perco por entressafra
 
excessivamente in natura
solapada solipsista
metida a derramada
 
enfrento este derrame
e invoco o mistério
desta lucidez.
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Rumo ao desconhecido

Há uma tribo em Papua-Nova Guiné
que fabrica suas próprias ilhas
arquipélagos na extensão de um mangue.
Seus habitantes retiram do fundo das águas
as raízes das vegetações fluviais
dispersando-as por sobre a camada
de terra leve que se sustenta
fragilmente à superfície.
O traçado de linhas brancas
que se vê com o Google Earth revela
o que talvez seja uma tradição milenar.
Descobrir tradições milenares em canais televisivos
como no curso de um rio: guardar certas imagens.
Querer escrever sobre o inverno.
Imaginar o inverno na Oceania, o inverno
em Papua-Nova Guiné, o inverno naquelas ilhas
fabricadas por mãos humanas, talvez milenares.
Lamentar ser um corpo tão limitado
se orgulhar deste corpo tão limitado
entre paredes vermelhas e simetrias azuis
de onde escapa o céu de Julho.
Nuvens fosforescentes ao meu dia
depois pesadas, que nem ilhas
mas tão leves.
Ler um poema de Ana Estaregui
um determinado poema que também
impregna minha memória afetiva
que fala do som elíptico de island
sobre resistir às águas, “tuas águas”.
Ser ilha, invernar a delicada
estrutura de um corpo
que se resfria há vários dias
que pensa em ilhas, caça brechas
de sol, treme ao vento mais leve
a um punhado de temperatura mais baixa.
Pensar que o inverno não é um estado de espírito
mas uma condição topográfica
como as ilhas
mais do que climática
e que tudo que se queda
é de certa forma ilha
e o que se sustenta é só o fino e passageiro
cair de uma coisa a outra:
o curso de um rio
o ritual de um mangue
mãos milenares
que não sei que inverno escavam.
Pensar que sob este céu de Comendador Soares
entre paredes vermelhas e simetrias azuis
fabrico meu próprio inverno
por que não, minhas ilhas?
Pensar que elas também se estendem
como vegetais, por minhas palavras.

na edição Inv/ferno, Revista Minotauro.
Agosto / 2017

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