O mundo é repentinamente o areal vazio
sossegada na mansidão de colchetes
à estratégia de minhas teias, a perder a espessura

ando rouca, dando corda ao delírio
montada na nudez das naus
rouquenhamente esquecida em outonos
sossego de queixar-me, de apartar-me do que vejo

matéria de enredos nos dínamos do escafandro
concede-me o tormento de encolher-me
sobre a torção exata dos possessos
manifestamente debruçada sobre a orla, sobre a sede

capino, cubro-me de flores mortas
faço das mãos o primeiro hálito
e dou à boca o código da noite

criptografia de arcanjos
projeta sobre meu sexo a dizer-me: perdão.

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Salmo

Toda opressão e toda glória será dada
ao capitão e aos homens de bem
assim na terra do coronel
com a cabeça de 150 milhões
que não votarão nele
nos vemos no capitel
da Catedral de Brasília
de onde pendem
como enforcados
três anjos maciços.

Bichos da vasta floresta

Uma das grandes alegrias de escrever um livro é permitir que a voz ecoe, tecida a muitas vozes, de maneira ainda mais intensa do que quando escrevíamos poemas isolados (que certamente habitamos, mas de forma talvez altissonante). Uma obra, por sua vez, propicia que alteridades atravessem o campo já minado e permeável do poema – fronteira múltipla a trazer contingências, hermenêuticas, durações. Deixar que outras vozes acalentem seu próprio silêncio, permitir que uma poética vire longa travessia, viagem; consubstanciar beleza, espanto, intempérie. Aquilo de ser ruína, e ser também território imensamente novo e pulsante, como o músculo que bombeia o sangue para nascermos. Enfim, tudo isso para dividir as primeiras impressões de leitura do livro que virá, as palavras do poeta que admiro imensamente, Caio Resende. Ele também assina orelha/prefácio (posteriormente divido um trecho do belíssimo texto que ele fez).

“Em breve, rodando o mundo, o livro ‘Uma casa perto de um vulcão’, da admirável poeta Roberta Tostes Daniel. Este livro é um assombro, uma pulsação de abismos e terras distantes; de retornos e de partidas; uma revoada de vozes catapultadas de silêncios e de ritmos. Uma força da natureza. A mim, me coube a vasta alegria de escrever-lhe a orelha, para em seguida ser eu mesmo um dos bichos da vasta floresta de suas nervuras. Uma alegria, uma alegria. Obrigado, Roberta, obrigado por tudo que é imenso em sua poesia!”

 

Declaração de rendimentos

Abrir a caixa de correspondência
pagar algumas contas
karmas

sugar o oco da felicidade

em canudinhos
recolhidos
do otimismo

a maré não está pra peixe
e o impacto do plástico
nos oceanos

é como
abrir alas aos coveiros

coisa horrenda:

esperar
com fé e graça
os anos de escassez.

Mórbido: o sorriso mais caro
feito agora lente de contato
para os dentes.

E esse amor tão aburrido
após a desova
dos peixes.

Uma pilha de rejeitos
um país com retração gengival

e indecomponíveis
descontos
num contra

xeque-
mate.