No morro o funk continua, como se não houvesse amanhã
nem ontem. Posso morrer a qualquer momento.
Sinto o coração disparar numa disritmia inconsequente.
Se ainda fosse taquicardia, incongruente que é.
Mas essa vontade de ser exorcizada, como o título da canção
que também nomeia o que acontece ao meu peito:
o peso das coisas brutas e reais, não as sólidas
como pedras ou espantos, que se tateiam com mãos ou halos
mas as coisas de ninguém
esse ódio sortido em falta de bom gosto.
Falo de pessoas infelizes cujos corações
já não batem, pois não é possível
ter de bater panelas para que ouçam seu corações.
Não é possível se ensimesmarem nessa catarse
ignóbil, no desmantelo, amesquinhadas
abrutalhadas, vis. Meu coração não bate por elas
bate a 44%. Se eu viesse a morrer amanhã
mas amanhã eu não morro.

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Uma casa perto de um vulcão (Patuá, 2018) | Vídeo 6

A casa é um pântano, nada ensina que a casa é um pântano

Último vídeo da série de vídeo-poemas gravados para o lançamento do livro, que chegou ontem da gráfica, há um mês exato da divulgação do primeiro vídeo. Ontem, também, tive a alegria de ter dois dos meus poemas lidos pelo querido Eduardo Lacerda, editor da Patuá (um dos poemas também foi gravado por mim e está na playlist do meu canal lá no youtube). Nestes tempos, precisamos sobremaneira dos encontros, os encontros que se dão por todas as vias do afeto: aqui, nas ruas, nos livros, nos corpos. Meu afeto e gratidão a todos que me ajudaram a compor esse livro (Fabiana Turci, Teofilo Tostes Daniel, Marisa Tostes Daniel, André Felipe da Silva, Caio Resende, Leonardo Mathias, Ricardo Escudeiro, Eduardo Lacerda), direta e indiretamente, desde as experiências fundantes, até o desdobramento no que veio a ser Uma casa perto de um vulcão. Espero que ele se reverta em pouso, aspereza, diálogo, silêncio, dicção a quem se articule com ele. Estarei aqui, para ouvir e tecer. 

Apud Joyce

Existe algo na dimensão de amar
e mudar as coisas de lugar
existe algo tamanho.

Que me interessa mais, mudar
para perto das coisas, o coração
perto e selvagem.

Existe algo perto e selvagem
entre musgo e cavalo
ponte e queda

que muda e muro
e vira e declive

entre palavra e música
Belchior e Clarice

que acena e canta
um rosto um repto

sucesso
fracasso

alguma curva no caminho
segurança irrefletida de uma fera

só. abandonada. feliz
perto, muito perto do coração

mudando e amando as coisas
que interessam mais.

O mundo é repentinamente o areal vazio
sossegada na mansidão de colchetes
à estratégia de minhas teias, a perder a espessura

ando rouca, dando corda ao delírio
montada na nudez das naus
rouquenhamente esquecida em outonos
sossego de queixar-me, de apartar-me do que vejo

matéria de enredos nos dínamos do escafandro
concede-me o tormento de encolher-me
sobre a torção exata dos possessos
manifestamente debruçada sobre a orla, sobre a sede

capino, cubro-me de flores mortas
faço das mãos o primeiro hálito
e dou à boca o código da noite

criptografia de arcanjos
projeta sobre meu sexo a dizer-me: perdão.