Gosto cada vez mais da minha cara manchada, do meu rosto maduro, das desconexões nas sobrancelhas, dos pontilhismos todos que criam essas saturações do eu. Encaro no espelho a prova viva de meu embaraço pulsante e já não tento dominar o desalinho de fios, pontos negros e brancos, amarelecimento, pus, marcas de expressão, veias saltando, olhos secos. Tudo impresso na pele que vem antes da técnica, ainda que fugidia, de dar às superfícies mortas a memória de uma organicidade, de confluir numa arquitetura de insólita duração, de se desmembrar entre vital e fantasmática.

Com sua temporalidade, a vida regula meu pensamento. Em sua hegemonia, a morte me dá tempo. Pareço sorrir a privações e privilégios, pareço inócua como aquilo que não se esgarça. A fragilidade da voz nos traços, das pontas finas, dos requintes e ditames da genética, da rouquidão nessa mesma perpetuação que um dia afunila tudo, movimento de cordame em cada ato que se presta a dizer, mesmo involuntário. Conforto nas ruínas.

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