Gosto cada vez mais da minha cara manchada, do meu rosto maduro, das desconexões nas sobrancelhas, dos pontilhismos todos que criam essas saturações do eu. Encaro no espelho a prova viva de meu embaraço pulsante e já não tento dominar o desalinho de fios, pontos negros e brancos, amarelecimento, pus, marcas de expressão, veias saltando, olhos secos. Tudo impresso na pele que vem antes da técnica, ainda que fugidia, de dar às superfícies mortas a memória de uma organicidade, de confluir numa arquitetura de insólita duração, de se desmembrar entre vital e fantasmática.

Com sua temporalidade, a vida regula meu pensamento. Em sua hegemonia, a morte me dá tempo. Pareço sorrir a privações e privilégios, pareço inócua como aquilo que não se esgarça. A fragilidade da voz nos traços, das pontas finas, dos requintes e ditames da genética, da rouquidão nessa mesma perpetuação que um dia afunila tudo, movimento de cordame em cada ato que se presta a dizer, mesmo involuntário. Conforto nas ruínas.

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A vida é facho de uma arquitetura
milênios de edificação do suspense
bordando vazios no recosto do assento.
Guardada chuva obsoleta
na decoração da sala
seu objeto esquecido.
Não são gestos
que avisam da trajetória
mas as fendas no peitoril da janela
o limite de cada superfície
o mistério que se esconde
sob este luar invertido em pleno dia.
Não basta saber o que sei
e olhar o que olho
e tocar o que nem sempre posso
recalcitrante desejo
de espessura oculta
e que no entanto engendra
este sonho maior, fugidio –
vigília, fundação.

Da gramatura de um céu
radical
da ancestralidade
dos polares
da vizinhança
das cores
das sementes
geminadas
de ser mais frágil
que eu, a te cuidar
do que não tem jeito
nem nunca terá
de um vento que retorna
à voz, obscuros
de ninguém
da sorte
do descanso
de saber respirar.

Não há nada mais precário
que dois poetas
que falam pelas bordas
de suas crenças, conjurando
aquilo que se refez
da noite ou os escalpos
de textos mansos
plenos de intenções.
Antes, as tetas e o pasto
antes, o lastro e o leite
antes o miolo do pão
formatado por mãos tensas
caindo à boca de um
prefixo: des-je-jum.
Manhã, alguma
se o desejo sorve
a fumaça e o odor
de cinzas molhadas
na névoa desta
ardidura
manifestamente
soçobra
dos discursos
salivados de muco
mar e vaidade.