Forma

Ficou um mar de sangue
Svetlana Aleksiévitch

O que tenho
o não saber
o que move
o que me desenha
o que o sofrimento petrifica
sem magia ou beleza
do que Aleksiévitch se apodera
do que Chalamóv fala
da imagem de um tempo
gigantesca vala comum
de utopia e inocência
da culpa tão terrível
de todas as histórias
ser um homem-pena
diz Flaubert
penso que me pesa
desejar como Svetlana
ser a mulher-ouvido.

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Roupa íntima

Só almejo ficar quieta e
espero o sangue vingar
o sangue da vítima o
sangue da mulher que
aborta o sangue do
pássaro absorto o
sangue do trigésimo dia
não há tempo de entender
a ira invertida é pano
pra manga: posso suar
posso me enforcar
virar pano de bunda
ou camisa de força
e vênus, não, me dê tempo
me dê a mulher que sou.