Paradise now

Um livro, qualquer objeto
de tempo tardio, imantação
para estranhar e conviver comigo

desprender o choro das grades
subir a escada em caracol
das ideias que amparam o limbo.

Não me sentir representada
pedir à matéria
que engaste o presente

com a palavra-estrategista
das suturas
e das demoras –

contínuas serpentes
em maçãs envene-
nadas.

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Cosmógrafa-mor

Uma mulher amordaçada na palavra
em um bilhão de estrelas
é um satélite desconhecido
ingovernável, limiar de uma nova
vertiginosa liberdade.

Alegações

O poema fura o silêncio.
Esgota um projeto de nação.
Faccional, entope os bueiros da cidade.
O poema é esse gosto pela dinastia
falida das palavras alinhavadas pelo fel.
O poema explode a metáfora
mas insere no ritmo sua tensão maior.
É, sobretudo, iminência.
O poema perambulando na quadra da morte
desafiando o buraco causado
pelo som, vibrátil, concêntrico
dizendo-se ilharga das folhas
e percepto vegetal.
O poema é você de frente, de costas
pro silêncio continental
de um quarto de século
no spacatto e no sopro
de um bailarino enfurecido
que se tumultua ao sabor do gesto –
o poema não presta e você não presta
mas tudo nele é movimento: te concerne e te preza.

Ganga

Silenciosa como os ventos pagãos
mais silente quando sedimentada
urde um segredo de urze
vislumbra a maioridade da brotação.

O que sonha é uma vastidão de cavalos.

Feliz, cavalga.
Um segredo que ela sabe inchar
no cardume de tudo, se vê crescer
como rio velho e sujo.

Sozinha, Ganga movimenta o mundo.