Bruxa

A cada dia, torno-me um tipo de bruxa secular, movida em esteira de ignomínias. Uma bruxa sem poção, imantada por ódios e queixumes protestados na dívida pública dos criadores de caso. Uma bruxa-burocrática cuja interioridade se fomenta da mácula dos dias e que transborda silêncio como se desfiasse sua língua por longos quartéis-generais. Um ser feito da matéria que lhe envenena, que usa a própria carne para fazer valer seu protesto. Antes, devota a língua. A língua que borda o suor dos incautos. A língua de que deriva o primeiro pó da guerra. A língua que é o arbítrio dos que lhe ignoram. E porque é uma bruxa, tudo isso reverberá de algum modo incalculado não só por sagões e cercanias de alarmes luxuosos, mas por onde provém sua força vaticinal e bruxuleante, força de bruxa, vagalumeada pelas sombras que lhe são irmãs. Sua força reversa de facas e guilhotinas, já antiga e sempre renovada. Sua força adversa, antimatéria para os olhos, primeira matéria das mãos, torneada por brisas ou furacões, natureza sem razão de ser, onde o sagrado exerce sua temperância porque sabe, com justeza, o que é o tempo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s