Zap

Daquilo que ainda sinto no ar
quando fecho os olhos
e vejo ao longe

daquilo que por obrigação
se transforma no ar que respiro

não é por fechar os olhos
mas sem fechá-los
eu veria?

Atrás de uma montanha
calcinada
e da paideia

Santa Fé dos ossos de O’keeffe

sobre o flanco Pedernal
bones, ossos de carneiro

flutuando em Ghost Ranch
a flor a pedra

take time to look

inscrito no que há de vento
dentro delas

propícias a esses ventos
formas calcárias de forças

imiscuídas en pueblo
e taos

andemos
sobre lajotas pintadas
com óleo diesel queimado

a casa de Ruy Ohtake

por pessoas que lutaram a luta armada
cultivemos

pilotis
platibandas
deques

quem sabe a arquitetura moderna japonesa
em diálogo com o modernismo brasileiro

casa feita à irmã e luto
já não o vidro e o adobe
ressoando as paisagens

mas o componente espiritual
na concepção arquitetônica

invadindo de alusão
esse espaço tinindo
do ar que eu reviro

todos os dias imantada na imanência

todos os dias uma forma
uma concepção arquitetônica

um modo de levantar o pé direito
e ver as luzes chegarem.

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Bruxa

A cada dia, torno-me um tipo de bruxa secular, movida em esteira de ignomínias. Uma bruxa sem poção, imantada por ódios e queixumes protestados na dívida pública dos criadores de caso. Uma bruxa-burocrática cuja interioridade se fomenta da mácula dos dias e que transborda silêncio como se desfiasse sua língua por longos quartéis-generais. Um ser feito da matéria que lhe envenena, que usa a própria carne para fazer valer seu protesto. Antes, devota a língua. A língua que borda o suor dos incautos. A língua de que deriva o primeiro pó da guerra. A língua que é o arbítrio dos que lhe ignoram. E porque é uma bruxa, tudo isso reverberá de algum modo incalculado não só por sagões e cercanias de alarmes luxuosos, mas por onde provém sua força vaticinal e bruxuleante, força de bruxa, vagalumeada pelas sombras que lhe são irmãs. Sua força reversa de facas e guilhotinas, já antiga e sempre renovada. Sua força adversa, antimatéria para os olhos, primeira matéria das mãos, torneada por brisas ou furacões, natureza sem razão de ser, onde o sagrado exerce sua temperância porque sabe, com justeza, o que é o tempo.

O meu corpo
que é um corpo fêmeo
que é um corpo que sangra
que não é um corpo negro
um corpo é preciso dizer
que é um corpo é preciso
repetir a palavra corpo
o meu corpo
fêmeo que sangra
que não é negro
que é preciso dizer
se abrir para parir
que se viola
que se abusa
que é o corpo de mulher
mas o corpo da mulher
branca, que não labora
um terço do corpo negro
que é um corpo social
com privilégios sociais
que é um corpo branco
fetichizado porque é
um corpo fêmeo
um corpo que já amou
corpos fêmeos
é um corpo que já se nutriu
do sangue de corpos negros
é um corpo aberto
é um corpo histórico
um corpo se abre
para nascer lutar
contra o que em si
é a perpetuação
da própria ruína dos corpos.

Constantemente estamos delimitando e testando a elasticidade das fronteiras, buscando brechas, apostando em sendas. Dizendo: ‘depois de hoje há algo de definitivo sem o qual o futuro é só horror’. Mas é muito difícil nesta madrugada de violência inominável não saber o nome e o sobrenome, negar que os limites já foram todos atingidos. Há tempos. Temos a história, a escravidão, a força policial. Temos Amarildo, chacina aos milhares, Claudia, Rafael, Marielle. Corpos negros sendo escudados pelo privilégio branco. Até quando? Essa noite é toda trovão. Ineficazes lágrimas. O horror não é só a sistemática dos tempos atuais, calcada em brutalidade e apagamento; apenas se alastra dos becos e respinga em nós, em mandatos, em supostas garantias de um Estado que é só direito para os brancos. E que só é ágil a quem lhe paga. Se alastra a violência, há quem saiba que ela é diária e inequívoca. As veredas e sendas e limites e geografias se atalham nesse beco sem saída. Há que se encarar o beco.

Testemunha

“Escalo o flanco de um vulcão entalhado no gelo”
Patti Smith

Escreve em vértice
no sincretismo
no epicentro –
comunga
evocação
com evocação.
Devota
das calotas polares
em degelo
prestes a apascentar
no regaço
quente da tintura
borrada no café
no coração vulcânico
a pureza do
fim do mundo.