Feras líquidas

I

Quando me injetaram o torpor da consciência, transpus a sociedade e despendi veias em rios a enfrentar o desastre setentrional. Ser desviante, metade pássaro, metade minhoca, contando os próprios anéis como tesouros e nuvens como pertencimentos. A ordem transversa do discurso desfiou a posição de enunciador – e aqui estou no ponto estreito da abertura – na singularidade da voz, na indistinção do canal, arriscando, fática, a ser engolida pelo que em mim é fluxo e sensatez.

II

Tenho a cabeça cheia de gumes, espumada por ideias em dissolução (referências, vazantes, sons dos cornos do escuro).

III

Duelo em Derrida, interstícia.

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Cabral reloaded, João Neoliberal

O mercado comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O mercado comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O mercado comeu meus cartões de visita. O mercado veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O mercado comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O mercado comeu metros e metros de gravatas. O mercado comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O mercado comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O mercado comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O mercado comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o mercado devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o mercado devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O mercado comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O mercado voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O mercado roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O mercado roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O mercado comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O mercado comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O mercado comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Al otro lado

O que é uma linha divisória
precípua
entre 12 segundos de escuridão
a rajada das folhas do coqueiro
contra o horizonte
anunciando nesta terra
em se plantando tudo fende
o que é o movimento uniformemente
variado
dos vapores do engano
de fora pra dentro
regresso à falsa luz
e alumio a sede
escuto a água em que se atravessa
uma única vez.