JANEIRO

Tem uma casca morta
uma asa de barata
nas coisas que escrevo
por dentro da repetida
concavidade dos pássaros
no corpo dos homens natos
na tradição, na subestimação
tem uma asa de barata morta
aos pés dos bandoleiros
no gosto do armário
num fluxo de consciência
tontos no asfalto
temos eu, você e São Januário
ou um santo que desejaria
se chamar Janeiro
temos nós, já dispersos
na folha do calendário
desimportantes vagando
pela palavra amor.

ROMANCE

Uma pele-menina
um sentimento de curandeira
o tempo estrito do mundo
eu sou a água que corre
viva na cicatriz interina.

FECUNDA

Me nomear serpente
com o sabor inequívoco
das maçãs podres
e um lato sensu
de Eva incendiada.

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Cogito

não pensar em quase nada
talvez, numa agonia lenta
vítrea, pela madrugada

não pesa quase nada
o suspiro de um bicho
o desenlace a desandança

a grande conversão
da flor
em água

nestes dedos demorados
voejando a duração
o desfazer antigo

não pensar em quase nada
a morte é uma flor, disseram
eu me rendo à flor