Fotograma / Dia dois

FOTOGRAMA

Uma estrela de mãos pesadas
amparada pelas falhas
de suas suturas
corrimento luminoso
da forma
dedos hirtos
unhas como cabeças
esquivas escamas
da noite no mar
do corpo na sombra
um poema
nos meus olhos
duas granadas inertes.

DIA DOIS

O corpo
uma coerção
dentro de nós
tanta relva
com a navalha
das mãos de Deus
liberto Janeiro
em Fevereiro
minha alma
ao mar.

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Entalhe

Se me reerguer
uma rosa
se me calar
absurda
e se as coisas
que se movem
são as coisas
que se sentem
e se sentem
as rosas
reerguidas
caladas
esperan-
rosas
deflagradas
no absurdo
da palavra.

Tudo acaba. Tudo morre. As coisas morrem. O tempo morre. A morte morre. No findar de tudo que finda, só nos resta findar também. Chega o momento em que nem o luto é o aspecto exato da perda. O luto anacrônico, alimentado pelo medo do que o inevitável há de nos retirar.
E se chegamos nessa compreensão em um dia, é porque denegamos o espelho. Algo soluça pouco antes da fatalidade. A vida toda é soluço. Tudo que é sólido se desmancha no ar. Então, tudo é leveza. Tudo é vestígio do sólido. Tudo se desmancha.
Abrir mão dos entalhes das palavras, encarar o proscênio, a ribalta.
Crueza. Crueza e nudez. Porque tudo acaba. Tudo se dissipa. Tudo é dispêndio.
E nos pede amor. Nos perde a inventar nossa versão do luto, da misericórdia, da dor dos outros — nossa dor, nosso medo.
Falo do lado do que finca, onde não há enredos. A trama nos agrilhoa, nos aliena. Nos concede motivos.
Mas aqui, onde tudo acaba, resta o sem-nome enfim revelado.

Eternidade

Carpir um rosto
tomado a léguas
pela fuligem
do horizonte-pássaro.

E no desvio da imensidão
sussurrar a água
no levante dos nascimentos.

Barro, pasto, boi, lama
o rosto uma casa
a casa sua dissolução.

Rachadura, tijolo
sacramentos, devires
os que conluem
com as rochas.

Cavando poços
abrindo fendas
lavrando um corpo

em sua morte
seu fogo, enterrado
seu pássaro absorto.

Estamos: à espera
das horas.

https://youtu.be/f1CNNf9iU9Y

Arvo Pärt

Casa vazia
árvores crescidas
por dentro
pintura ou imaginação
desejo de sair de casa
de alimentar meus filhos
desejo pródigo, pagão
de retornar à casa vazia.
Uma única mesa à luz da tarde
e portas, três
e árvores, três
e riachos, três.
My heart’s in the highlands
mas minha fome habita
a floresta tropical.

Órion

Falo de um mundo decadente
concluído na emancipação do sangue
um mundo sem nome
um mundo sem mim
onde pouso, pairando
minha própria decadência
espécie fúlgida
desalinhada em dedos
veias abertas da entrega
possuída.

Um homem longevo

guarda a réstia incandescente
da neblina

daquilo que se entremeando
com a noite, o percalço

se atomiza
depois, se fissura

na partícula quântica
do abandono

um homem longevo
não porque não teme

mas, se dentro dele
antigas palavras

são divindades iniciadas
no feminino

na fusão da história
apenas um homem

e a meridiana.