Adamantita

Amo a poesia em sua rudeza
em pensamento, sim
amo, se não esconde sua tintura

se não celebra a fétida cultura
de uns para poucos
destros donos da palavra.

Amo mais, se machuca
verdadeiro, insincero
estro peregrinável

incrustado em Aruanda
nos dialetos de Luanda
– o que não sei e me protege

e me vindima – certeza de ouvir
e de novo, inerente
entre as coisas viventes da carne

as coisas secretas da carne.

Alvorada

Sou aquela que na noite
abre um postigo
desenvolta às escuras
preparo a imensidão
revoltosa do meio-dia.

Avante o pânico
criança antiga
avante o nojo libertado
do velho abusador.
Vamos e de mãos trêmulas
decalcando a noite.

Quando no entorno da ternura
morre a ternura
quando de olhos bem abertos
ofereço meus traços esmaecidos
sem pregresso de seca

quase peixe , quase floresta
a força que me abre
mora nesse continente
antes de mim.

Liberoamérica

Fui convidada pelo Darío Zalgade para participar da Liberoamérica, um portal que congrega artes visuais, cênicas, literatura, entrevistas, ensaios em diferentes línguas, transnacionalizando o contato entre escritores contemporâneos, sobretudo latinoamericanos. Uma proposta interessantíssima que visa “la integración y la pluralidad sociales y la igualdad étnica, cultural, de género, clase, credo, cuerpo y orientación sexual”. Agradeço enormemente. Em meu primeiro post, reuni 4 poemas escritos em 2017: “como quem invoca as portas e os quadrantes”. Eles questionam, por sondagem, delírio e crítica, a maquinização do olhar e do corpo, em suas estruturações mortíferas.

quadrantes

https://liberoamerica.com/2017/10/26/como-quem-invoca-as-portas-e-os-quadrantes/

 

Recoleta

Na boca, um chumaço
de espinho indecifrável
e nas mãos
na inclinação de voar
se apressa
um pássaro na cabeça
da estátua
de bom agouro
– onde sóbrias jazidas
humanas –
a eternidade do mármore
não aponta
qualquer certeza
próxima do imóvel
confessa o espinho
consumido pela
artificialidade do tempo.
Um coração roça os dedos.

Barão das árvores

Meus pares de profissão
e modos telegráficos
que ocasionam
o alinhamento dos planetas.

A vós, no bate-estaca das unhas
que ruminam, prestigitadores
números e conceitos.

Mecanicamente estendo
no varal de meu destino
meu signo dúbio
de cabra e peixe

senciente – desaparecendo
aos modos obreiros
da lógica, vou sendo
no átimo da consciência

minha própria escalada.

Cria

Não é da noite
mais
a respiração
sente
exaurir a forma
que te adivinha
mente
animal pequeno
contorna
a clavícula
à chave
reabre
andrômeda
expulsa
o medo
do escuro
sonha o
repentino
agora
rejeita
ampara
o limbo –
no pequeno
mover
da vida
mais dócil
que estrela.