Pergunte ao pó 

Penso no deserto
penso no deserto
e na ilogicidade do caminhar.

Penso no deserto
penso no deserto
e em Camilla de Fante.

Penso no deserto
em sua arquitetura arqui-imóvel
ápeiron, sua arché.

Não existem pegadas
não se circunscrevem os rastros
de palavras pregadas no deserto.

Ninguém situa a consciência do deserto
a participação mística
quem supõe uma alma do mato

arranca a alma do deserto?
Desertificada psique
deserção, desertor

é o fabricante do deserto?

O deserto e seus símbolos
o deserto e seus deuses
o Olimpo no deserto.

Niilismo e deserto
fortuna e deserto
amor e desacerto.

Penso no deserto
quando o deserto me pensa
sou irmã do homem. 

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The absence

As minhas mãos estão atadas
pelas palavras e suas ideologias.
Com isso, escrever é ato pouco prático
como deveria ou poderia ser orgânico.
Em tudo considero personagens
envoltos de sua própria decadência
porque estou escolhendo os velhos.
Há muita estrada partida por esperas repetidas
e convidados que se consideram ilustres.
As palavras não perdem seu frescor
mas os homens se perdem.
Se amarram a jazidas fluorescentes
do que em suas inesgotáveis cabeças é o lembrar
do que em suas fictícias cabeças é o que foi
do que em suas frágeis cabeças é o tempo.
Minhas mãos estão atadas pelo tempo.

Between light and nowhere

O sentido de escolha
é determinado historicamente

ou somos apenas traços
de nossos desejos entre
possibilidades e escrutínios –

meu fantasma e o teu sorriso
não se coadunam aos tempos

sou a expressão que melhor
se encaixaria em teus anjos

dançar com muitas sobras de eternidade –
hope there’s someone

não espero.

 


a partir da música Hope there’s someone remixada por Avicii, na voz de Linnea Henriksson, disponível aqui.

Olhos

Em vídeo, meus olhos
estão quase sempre caídos.
Estranho, meus olhos
a curvatura ascendente neles
fazem lembrar os olhos de meu pai.
Perdi, acho que perdi
aquela pequena foto, aquela
meio 3×4: uma criança de meses.
A foto de meu pai que eu ganhei
quando também era uma criança
muito mais velha, uma criança
de muitos meses subsequentes.
Eu sempre estranhei, sempre
um bebê numa foto 3×4.
Mas só reconheço agora.
Reconhecia gostar
de ter os mesmos olhos que ele.
As bochechas fartas, o rosto redondo
o futuro que eu inventava
augúrio desenhado até os 32 anos.
Agora, que sou mais velha que ele
meus olhos, em vídeo
estão quase sempre caídos.