poesia

Rumo ao desconhecido

Há uma tribo em Papua-Nova Guiné
que fabrica suas próprias ilhas
arquipélagos na extensão de um mangue.
Seus habitantes retiram do fundo das águas
as raízes das vegetações fluviais
dispersando-as por sobre a camada
de terra leve que se sustenta
fragilmente à superfície.
O traçado de linhas brancas
que se vê com o Google Earth revela
o que talvez seja uma tradição milenar.
Descobrir tradições milenares em canais televisivos
como no curso de um rio: guardar certas imagens.
Querer escrever sobre o inverno.
Imaginar o inverno na Oceania, o inverno
em Papua-Nova Guiné, o inverno naquelas ilhas
fabricadas por mãos humanas, talvez milenares.
Lamentar ser um corpo tão limitado
se orgulhar deste corpo tão limitado
entre paredes vermelhas e simetrias azuis
de onde escapa o céu de Julho.
Nuvens fosforescentes ao meu dia
depois pesadas, que nem ilhas
mas tão leves.
Ler um poema de Ana Estaregui
um determinado poema que também
impregna minha memória afetiva
que fala do som elíptico de island
sobre resistir às águas, “tuas águas”.
Ser ilha, invernar a delicada
estrutura de um corpo
que se resfria há vários dias
que pensa em ilhas, caça brechas
de sol, treme ao vento mais leve
a um punhado de temperatura mais baixa.
Pensar que o inverno não é um estado de espírito
mas uma condição topográfica
como as ilhas
mais do que climática
e que tudo que se queda
é de certa forma ilha
e o que se sustenta é só o fino e passageiro
cair de uma coisa a outra:
o curso de um rio
o ritual de um mangue
mãos milenares
que não sei que inverno escavam.
Pensar que sob este céu de Comendador Soares
entre paredes vermelhas e simetrias azuis
fabrico meu próprio inverno
por que não, minhas ilhas?
Pensar que elas também se estendem
como vegetais, por minhas palavras.

na edição Inv/ferno, Revista Minotauro.
Agosto / 2017

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