I.
Um sentimento embrutecido na dobra da palavra. O emudecimento da circunstância até sua transubstanciação. Um ritmo na peculiaridade da fala. O pensamento não originário determinando amálgamas. Poesia, pura conflagração.

II.
A palavra me dá a interioridade do pensamento. O pensamento me transporta à nudez da palavra. A imagem fornece a desmedida do homem. E o entorno é a memória plangente das nuvens, misturada ao corpo-grito do mundo. O resto, eu sei, silêncio.

Decisão

Valha-me ser mulher
ser mulher e navalha
no rasgo das coxas fremidas
no tampo, no acinte da mesa
chamar ao passado mesa
o que quer que se acumule
nesse pedaço de nome
de vidro e madeira
nesse deslugar de falo
torvelinho de girar, quebrar
papeis e carinhos
incumbir à puérpera
sua espécie ebó
nascendo nas encruzilhadas
podendo ser tudo
costumeiramente nada
valha-me que ser mulher
ser mulher é navalha.

Te escrever
uma rosa suprema
o rosto profundo de flor
um crisântemo aceso –
onde se chegasse pelo cheiro
reverentes, os joelhos dobrados
de cansaço. Só as imagens
retorcidas do cansaço. Os joelhos
leves, abatidos pela sombra.

A força intocável de samurais a dor do tempo o eco de orvalhos descendo de pedras antigas onde tudo dorme antes do grito.

Um crisântemo aceso, um rosto profundíssimo de flor. As coisas se interpenetrando no escuro dos tempos, se sabendo no cheiro do escuro: que vestígio o dos passos?

Memorabilia II

Eras geológicas me consomem o ventre. Peso verbo, pesa-nervos. Artaurdiana no apartamento em chamas. Degelos pelos hemisférios dos retratos, de letras velhas em teorias da conspiração do momento. Revestidos de poeira centenária, os lustres da casa caem nas mãos do obreiro. Sobras. O corpo não se encaixa às mutilações, a luz é seu próprio ambiente e o corpo é sombra. Ao declínio do vão do meio dia, vão-se as casas corroendo pessoas.

Nota

Por intensa que seja a harmonia ou quebra entre som e sentido; por especulativa ou imagética que possa ser, a poesia, nas suas mais diferentes filiações, parece ter como fator preponderante seu poder de figuração/deslocamento. Por isso, sua irrevogabilidade, o caráter meio indiscernível e impermutável de seus elementos, de sua língua. Antilírica, hermética, intelectiva, virulenta, ela como que instala um efeito suspensivo e multiplicador dos sentidos da realidade. Para isso, pode soar aparentemente banal, pode propor a reinstauração de uma desordem mítica. Ainda que não referencie diretamente fatos de seu tempo, é produto do seu tempo. Embora figurativa/suspensiva, não reconecta nada; antes, corta a realidade e apresenta camadas de suposições.