poesia

Grafar

Trama trança fiama
dias repentinos
serpentina de poentes
derruba derrapa derrama
centros de terra
frenagens sensores
in consequentes
onde o poema é a arma quente do nome arrancado
onde o poema é a cauda do tempo amputado
escreve dos lados do berço do abandono
rasa paz branda
inaugura verbera
a encantação da pá
lavra.

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Minha vida vai estar numa mochila
a acompanhar dois hemisférios
a nadadora mergulha num braço
um traçado sutil faz menção da água.
O que o amor evapora são espaços
considerar o mundo com as supernovas
do quarto, da casa: o verde água
o vermelho rubi, o azul sempre sem nome.
Sempre algo se conquista no silêncio
se perde na sombra. Quem pensa
ficar daqui pra lá catando
playlists, livros interrompidos
pelo enjoo da viagem avassaladora
da realidade? Se dormir nem é opção
(quem dorme nestas horas convulsas?)
tampouco morrer. Errar
de uma casa a outra, no exaspero suave
do sonho de três anos. Ficar.
Ficar também é lutar.

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Sociologia

Prolonga-se desde o mastro
marxista, o tombadilho

condição de morte do movimento
sem a qual, porém, não há condução

superestrutura pungente da história
de avanços escravistas
ultramaresia cheirando a extermínio

onde o abissal não foi o canto das sereias
mas o monstro com a cara do progresso

retornando da anterioridade do homem
impossível, o rosto mais valente dos dinossauros

valia ter se perpetuado sobre nós
ele no seu próprio navio

carcaça imanente contra o asteroide.

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Pesquiso gestos
meu nada consta é um colibri
sou vítima da enumeração do meu tempo.
Troco de roupa com transeuntes
carimbo, por exemplo, Agnes Obel
meu certificado de quitação com a tarde.
Ganhei terno ganhei gravata
pus minha vida em leilão
sobretudo lentamente feri.

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Porque atravessavam portas comprometidas com outra espécie de lógica

não eram seus corpos matéria suficiente

atravessavam pela insuficiência, portanto, com o mesmo conhecimento de um recém-nascido

a mesma fragilidade, portanto

não eram ornamentais nem rosas de pedra, eram outra coisa

surgiam ao alcance da voz; extinguiam-se num mesmo ponto, sujeitas à deterioração e ao abandono

saltavam como pulgas, campos imensos, centenas de milhas; demarcação pertinente aos aviões, pensavam

no que pensavam, perdiam-se dos destinos desenhados no dorso dos dedos cansados da operação

isto de fiar ruínas como quem invoca as portas e os quadrantes

como quem salta lógicas desaforadamente

feito quem fotografa coisas possíveis e as consagra

na calha que escorre a água da chuva ou o sangue do abatedouro.

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poesia

No recanto desta sombra
qualquer coisa de muralha
que a quase tudo encobre
sobre o que precisa ser dito
com movimentos ritmados.
Sobre Rancière – as políticas da escrita.
Sobre, talvez, assumir um espaço
na comunidade: tomar parte no desvio.
Desviante, tocar superfícies desviantes.
Pele que anula a fibrosidade do papel
que assume possibilidades de pele.
Porosidade jamais murável
se adentra na dor de tecido vivo
muralha viva, pode ser, muralha que
caminha: com quantos buracos na cabeça?
Essa jamais hermética edificação
escorre inteira dentro desta sombra
onde, recostada, trago feito fumaça
antiga, deslocada. Somos, sim
os eflúvios uns dos outros.

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