Às vezes basta silenciar para ouvir a soma de suas próprias vozes. Há no conjunto dessas vozes um silenciamento. Você todo feito do silêncio das vozes que construiu. Sufocado, travado na consternação de respirar. Nada a declarar com as palavras que o fundaram, da pesquisa empreendida de você mesmo no mundo por tantos anos. Você continua a desafiar a norma e a escrever, sendo agora o fantasma que percorre rastros, aclara possibilidades, revê alicerces, propõe rotas. Você escreve invisibilidades, agencia o silêncio de antigos discursos, percebe que a fuga iniciada ao despistar com as palavras o ferimento da inadequação continua na forma de um caminho em parte exaurido, onde despontaram trilhas e se reorganizaram labirintos, sons, incursões, dizeres. E, por isso, não há mais o que dizer, a não ser o incessante. Incessantemente dizer espaços, órbitas, trens noturnos, praças de guerra. Dizer o corpo preenchido de vozes, miragens, cansado de propor lucidez.

1 thought on “”

  1. alguém deveria escrever a história privada do silêncio, qualquer século… como os historiógrafos franceses depois de tanta documentação e agulhas nos palheiros a descobrir que vida foi terrivelmente a mesma.

    um grande abraço

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