Às vezes basta silenciar para ouvir a soma de suas próprias vozes. Há no conjunto dessas vozes um silenciamento. Você todo feito do silêncio das vozes que construiu. Sufocado, travado na consternação de respirar. Nada a declarar com as palavras que o fundaram, da pesquisa empreendida de você mesmo no mundo por tantos anos. Você continua a desafiar a norma e a escrever, sendo agora o fantasma que percorre rastros, aclara possibilidades, revê alicerces, propõe rotas. Você escreve invisibilidades, agencia o silêncio de antigos discursos, percebe que a fuga iniciada ao despistar com as palavras o ferimento da inadequação continua na forma de um caminho em parte exaurido, onde despontaram trilhas e se reorganizaram labirintos, sons, incursões, dizeres. E, por isso, não há mais o que dizer, a não ser o incessante. Incessantemente dizer espaços, órbitas, trens noturnos, praças de guerra. Dizer o corpo preenchido de vozes, miragens, cansado de propor lucidez.

Publicado por

Roberta Tostes Daniel

Roberta Tostes Daniel, carioca. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmargens, Zunái, Musa Rara, Diversos Afins, Estrago, Incomunidade, além de blogs e no site do Centro Cultural São Paulo. Incluída nas antologias: “Desvio para o Vermelho” (CCSP), “Amar, verbo atemporal” (Ed. Rocco) e “história íntima da leitura” (Ed. Vagamundo). Email: robertatostes@gmail.com “Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra” (António Ramos Rosa)

  1. alguém deveria escrever a história privada do silêncio, qualquer século… como os historiógrafos franceses depois de tanta documentação e agulhas nos palheiros a descobrir que vida foi terrivelmente a mesma.

    um grande abraço

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