Epistolar

O silêncio sórdido da tua partida se faz sentir três, quatro anos depois, quando a medida da ausência ganha nome e sobrenome, e uns 180 poemas. Os dias continuam a correr nesse engasgo, dizem até que o mundo acabou em 2012. A política multiplicou meu contorno e a evocação das coisas não pode ser feita apenas de sutilezas. Sonhos seguem encarcerados e dias melhores também morreram. No entanto, escrever poemas é a mesma delinquência cruel, varando noites, vídeos do Youtube, confissões naturais. É ainda mais premente que antes. Há epicentros e demandas por abocanhar a fuga das palavras. Não se fala mais em desvelamento, mas em greve geral. Procuro fazer das noites o repouso da mente que antes cumpria uma rota geolítica de deformações. A ambiguidade sendo o nome de nascença. Mas, assim, aqueles nomes de sempre permanecem mais atuais que nunca. Seguimos esperando o pior ou que pra frente venha isso de ser gente e ser poema, embolado na decoração canibal da própria morte, que não te acha. Ah, seria foda demais ler um poema teu, no hoje. Aquelas agruras de canções rebuscadas e ausências pressentidas fazem sentido hoje? Não sei. Ouço cada vez mais Debussy rangendo luas. Cada vez mais entrego ilhas e fur alinas. Cada vez mais te não vejo entre sorrisos reais, ausências reais, coisas reais. E esta carta não vai ter fim, se início não houve, onde o arco tenso da imensidão permanece.

Nota

A escrita já era pesquisa, sucessão, montagem. Poemas que dialogavam entre si, nos meses em que foram escritos; núcleos, chaves de leituras, ciclos: estava tudo ali. Um apontamento para certa atemporalidade e mística, em consonância com o tatear da linguagem no evanescimento. A metalinguagem na linhagem do abstrato, como que erigida por um olhar tardio, de um exílio reflexivo sobre coisas e acontecimentos. Um longo afogamento: “no fundo / essa vontade de morrer nas coisas / essa urgência de afogada / viver nelas / palavras, pessoas, coisas”. “Sou eu / um barco / ainda ouvindo/ em segredo”: movimento de ancoragem e abstração que é a tônica daqueles poemas. Outros se perfazendo no atravessamento peregrino ao chegar nas coisas: para, então, ser testemunha, aquilatar, transformar. Tempo presente, espaço presente, como também, futuro. Peregrina e cidadã, ainda que navegante. Mulher de possibilidades, devir: dizer com ethos, intertexto e, claro, corpo, corpo, corpo. Retornar à mística, à metalinguagem, propor empirias, circundando a paisagem náufraga ou desértica ou multifacetada da psiquê e das cidades. Aqui, recorte da casa em conluio e é uma “uma casa / perto de um vulcão”, que “pode ser um rastro / da gente / jamais extinto”. Recordação pela ancestralidade, na borda do que há de vir. E se tanto percorri em Março e Abril, dois meses me dizem que o tempo é o absoluto relativo e não há absolutos na escrita, porque a escrita é costura do imanente que corta o corpo do texto e transpõe a imagem do silêncio. Pede para além do texto. Então, a poeta: eu, outra. Que ela grite, que ela faça greve, resista sobre os murmúrios do conchavo e do status quo. O que nasce é só e coletivo. Deseja o apoderamento. Ser fruto do tempo, ser respiro, calma e a liberdade do dizer. Depois, o que vier, será o de ouvir.

Aquele momento ou luz que avança à revelia

Notícias azedam na porta.
Manchetes das mais diversas carnes.
Fukushima avança em forma javali
sobre a natureza abrupta.
Mísseis estadunidenses seguem
em viagem eterna.
A história parece o eixo do mal
que não há por si mesmo
em meio aos seus ciclos e ruínas.
Programamos greve geral
sem esperanças.
Sonegamos impostos
mas não aos 13000 javalis
o direito à radiação.
Não lembramos do poema de Maiakóvski.
E o sol e tantas outras coisas infecundas
brilham sob seu próprio lema.

Limite de ossos no asfalto do fim do mundo, segue pela rotativa para cruzar o tempo sem império.

Retorna com tipos samurais, crianças, feições franzidas em sonhos carcomidos pelos lençóis.

Diferentes fachos do mesmo semblante. Talvez, basta pontuar a luz.

Soerguer os nomes, considerar os pássaros.

Desmentir o vocabulário da névoa, deixar o entulho soar suas litanias.

Talvez, os carros se apressem sobre os anjos. Na mecânica hermética dos ossos, escreva a ascensão dos novos.

Ferrugem todos os dias.

Se desfaz com a cera
fervente da memória
intenções de uma metalurgia
moldar seus gêneros, capitanear
seus pelos, elidir seus arrepios.
Sabe a partir do inglório
e reina com isso
mas é urgente
a mais doce ardência
persistir no que hoje
não é morno
não é trágico
é o que sempre
sustentou alta densidade
certa forte veloz
a consciência.

Não há culpa
se os olhos, tão grandes
derrubam cercas e aramados
confusos, estes nomes
não podendo estar mais próximos
que pairados no ar e no amor.
Não faço culpa a ninguém
de olhar com invasivo medo
texturas, tempestades
imprecisões do arrepio
e do aroma à luz
de transversais dos sentidos.
Veja, me veja
no alambrado míope
destes olhos, torcedores
tragicômicos da beleza.
Testemunham a dilatação
progressiva de um invento
ou confirmação –
não há culpa em saber
olhar.

Meu gemido gesto
meu sentido enfático da solidão
não tenho cordas com que amparar
os acenos da mulher enovelada.
Olhar para o nada
mulher, olhar para o nada
digo a língua das brenhas
sorrio vermelha, menstruada.
A boca onde fui alcançada
tornei mecânicos
os dervixes, os deveres.
Outono incide nos ares, cafés
caminhos pro cinema
interpelo mãos, olhar baixio
de bestas fêmeas –
cada vez mais fêmeas
cada vez mais feras.