Rodovia

Eu era a criança aturdida com o verde, o que me compensaria
na cadência suave das árvores nas encostas
e de tempos sucessivos e distantes em outras paragens.
Quando a estrada esvazia, restam os caminhões
pequenos desentendimentos como pontos
equidistantes na nódoa dos séculos
ameaçando a pertença das crianças distraídas na velocidade.
Rodovia, poema, palco de elipses
perpassam desgraças mudanças casas isoladas.
Na estrada, assumem a franqueza do insondável
imagens com que contornar múltiplas cegueiras
o desenho de certas árvores, frágeis filigranas
pensamento desmentido, roupa de não caber.
Eu, a criança de braços esticados olhos confundidos
do verde-heresia da viagem
criança de cidade, minguada pela imensidão de prédios e luzes
frágil e oitentista, século vinte.

Introspecção

Fechar os olhos
acossada
pela espessura da cicatriz
e do vapor
de abrir a porta.
O corpo que engendra
não os significados
mas a natureza
a que se moldará
ou a leveza
ou a decisão
de ser crua, andarilha
de trajetos inobservados.
Considerar o remorso
escolhê-lo, esquecer
ante a presença –
elo indizível
certo misticismo.
Como ponderar
com músculos involuntários?
Introspectivo portal
de concepções
entre recarregar-se
e refundar o mundo.

Sondagem

Qual a tua paz
qual a tua guerra
qual o teu exemplo
já experimentou teu corpo
já encarou barragens
até onde a corda bamba
que seivas e que florações
fluem ao nível da perversidade
já aprendeu a ver se
através das tuas imagens
há o imensurável?

Perguntar a quem o calar?

Certas perguntas adoradas são como método filosófico, onde cabem o descaminho e a cicuta. Repeti-las, na tradição da boca. Depois, aprender a ler, a sucumbir, pra transcender o óbvio: jamais respondê-las. Delinear este céu e um vento que vem socorrer a permanência. Delinear é um privilégio que não me cabe no estratagema da beleza. Chegar, quem sabe, de mansinho, intuitiva, repetir saltos de antemão. Maltrapilha, anacrônica de juncos, entre a bifurcação do êxtase e o empenho ignóbil.

VI

Tem essa coisa do eco dos poemas. O eco do que não se pode parar de dizer. Os peixes sendo os primeiros a entrar no navio. Afundado, por último, pelas mulheres e pelas crianças. O eco do que não se pode parar de dizer. Na ressonância do livro por vir, a primeira parte aberta ao canto das sereias. Ulisses amarrado ao mastro, o autor sem rosto, clamando pelo neutro, um tipo de morte do escritor. Não creio na morte do escritor. Mas na linguagem como a imagem de si mesma, fascinação do espelho a oferecer nova infância, mais sombria, um jogo de cartas, um duelo, homo ludens. Huizinga, Vygotsky, Wittgenstein. Nomes lúdicos. Blanchot de batismo – aquela fotografia de Rilke na biblioteca, a descrição nos cadernos de Malte do homem sedado pela atmosfera, os cabelos em pé das horas lidas. Construímos, dessa feita, em camadas e vozerio – de preferência, em pianíssimo, nossos recifes, nossas ancorazinhas, nossos plânctons, nossos deuses.

Poema compilado de frases do Animal Planet

Os peixes são os primeiros a ocupar um navio naufragado
fugindo dos predadores e se protegendo das correntes.

Um navio naufragado é sempre um recife
como qualquer outro.

Recifes artificiais são também pontos de encontro
de animais marinhos.

Onde o recife termina e o mar aberto começa –
aqui o recife avança

centenas de metros até o fundo do mar.
Ilhas Cayman.

À medida que se desce para o abismo
as coisas mudam.

A mais de duzentos metros abaixo
da superfície, um navio cargueiro.

Por enquanto, ele é um santuário fantasmagórico.
Lírios do mar aí se abrigam, uma coroa

de braços esticados para buscar alimento.
Comem lentamente o aço do navio.

Dentro de um século, o navio será inteiro devorado
restando apenas um monte de ferrugem

na profundidade do mar. Os corais
de recife ocupam apenas 1%

dos mares do planeta. Um coral desses
é um universo em si.