poesia

Fotografo para desembainhar as palavras
E escrevo pelo mesmo motivo – imagens

Posso escrever cegonha e lembrar de uma garça
Se fotografo a garça, cuido de meus olhos

Para que um dia eu veja, por exemplo, flamingos

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Matéria

Na cela do tempo, o downtempo
excarcera a nascente dos ouvidos
da garota com o gosto narcótico dos dedos
invadidos de fumaça.
Todos libertamos um cheiro de náusea
todos liberamos um desejo de pausa.
Frui de seus olhos a mudança de natureza
carne plástica, desenho
nujazz, cabelos lo-fi.
No trip-hop, se oferece em imensidão
elástica.

 

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Portas abertas ao precipício.

Ciente de que não sobraria qualquer coisa de meus armistícios.

Lutei até o último ponto da fronteira.

Nada me ameaçou mais que morrer pelas beiradas.

O consumo certo dos desvãos desafiou a vida marinha

e agora resta esse nó esse deserto essa hora pouca

esfomeada hora.

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Nice shot

De encontro às ruínas
tudo é antiquado
tudo dessangra.

Parâmetros, escolhas
obtusas
e meus olhos tangentes
obsedados pelo percurso
da anaconda.

Me reclamam momentos
de terreno baldio
me faço amparada
por satélites

it takes a huge effort
aprender qualquer coisa
além de meu idioma

minha própria gramatura
paisagem em alarido.

Esboça cara de pavuna
não sabe retroceder
observa de esguelha
deturpa a mensagem

se consubstancia
se fotografa

comendo as folhas do verão
os fios da seda
a vida de pausas.

Aqui, eu perco
o fundo mais fundo
no ângulo perfeito.

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Deslugar

Em vez de louvar
Vinícius
Carolina Maria de Jesus.

Em vez de dar nome
aos bois
libertar os animais.

No entanto
sou o ainda
e hipócrita

mas isso, minha cara
não é o
cristianismo.

Como poeta
no meu tempo
I play like a girl.

Há muito
as armas e os barões
assinalados.

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Infância

Tenho a idade da terra
chove desde sempre
meus galhos são suturas
observo o Pacífico de longe.

A chuva gretou pela infância
atraída por vagalumes imaginários
nunca foi tão escuro
as estrelas já eram míopes.

No meio do mato houve a chuva
no meio da chuva houve o mar
fiquei presa ao Atlântico.

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III

Acordei agora com a sensação do escafandro em meu corpo. No meio da noite, para quem se esgotou cedo. Me espanta a curva do tempo que flui desembaraçado enquanto me visto em escafandro para reter parte deste mergulho. Durmo por ciclos de esgotamentos. Insônias, inércias incidem flagelando estruturas mentais, inaugurando delinquências nos signos e nas razões. O azedume na boca diz que todos os poemas estão datados. De alguns saem vapores e trevas. De seus eixos, sintagmáticos, paradigmáticos. Deduzo que esses eixos não são comutáveis. Não há que se falar em fatalismo, mas em limite mágico. Devolvo a valise de cronópio. A mim me importa, mais que tudo, sua precariedade. Eternos que não se finalizam, dedos que se desdobram, costurados. Por serem devires e cristais, carne emancipada e corpo de escafandro. Escrevo e chove, agora pelo celular, graças ao aplicativo. Basta digitar a palavra certa e ouço sons do oriente. A palavra certa no poema datado. A infantaria do poema futuro. Um mushi, ao meu lado, talvez prestes em sua fatalidade a me entregar o lado sombrio das revelações.

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