Gullar

Que um poeta doe
sua incomunicabilidade
seu poema sujo
e não se sustente.
Que um poema escarre
e a tarde siga quente
após vida selvagem
perto da Ucrânia.
Que o filho, num sopro
raie a si mesmo
da desgovernança.
Que não haja parte
e que o erro
por princípio
sobrevoe o Maranhão
sobre relâmpagos
e detalhes de Rodin.
Assim, quando nascer
quem suporte
o peso ínfimo
do papel.

Isto da solidão brutal
fazer vítimas num jogo viciante
de azar.
De querer o acender e o apagar
do acaso.
De as flamas serem meu país.
De as palavras sofrerem menos
de desuso que de indigência.
Pela ordem indigesta de sucessivos golpes.
Na tendência de sermos
ainda piores que os mesmos.
Na resiliência mesquinha
na política fajuta
e na feitiçaria das imagens
por dinheiro.
O mesmo quarto que não dá vista
pra lugar nenhum.
Você que não escolhe viver
não escolhe como morrer.
A vida que se faz contra quem o atraiçoa.
A vida que já foi partilha
esquece seu primeiro rosto.
Isto se ser bruta
e de ser poema.
Última delicadeza.