poesia

Determinada a muitas circunstâncias
pesa o grau de violação do corpo.
Falar em direitos e fundamentos
é romper em parte a casca dos tributos
que tenho prestado a contribuir com a doença social.
Não me sinto de todo doente
tendo em vista que desvio da norma há anos.
Há nisso a propagação de uma inocência
e do fim da enfermidade
do centro, imposta.
Sabendo me reinventar na solidão
desisto das imagens da chuva
recorro amiúde ao horizonte
de onde o salitre procede.
Sei dos arrastos, da invocação da pesca
tudo continua como se nada houvesse
mudado, mas dos arenques
concebo novas formas novas fomes.
A envergadura de minha incerteza
circunstancia outras margens.
Na planura dos toques
na carnavalha dos olhares
e no consenso possível
a compreensão de um achado –
repousar a cabeça no ventre
repousar o ventre
descansar as formas.

Padrão
poesia

Anistia

Vamos passar agora
uma borracha por cima
de tudo.
Esquecer do ciclo
da borracha, inclusive
e apelar
para os inimputáveis.
É preciso reaver
a joia nacional
é preciso usar mesóclise.
Mãos de ferro e medo
redigem empolada carta.
O Brasil baixa a guarda.
Os brasões emergem
clãs, corporações
armadas, hagiografia.
Vamos redesenhar
a superfície terrestre
e total da miséria
na amnésia
de um escudo.

Padrão
poesia

O dia dos meus anos

Me proponho a andar esta cidade nua
onde nasci, no pulso
nova cicatriz de queimadura.
Em um mês, terei 35 anos.
É sobre isto envelhecer
passar depressa, mas em detalhe.
Faz 16 anos, escrevi
19 as selvas do meu olhar.
Cheia de números como a cidade
capto séculos como os vendavais
os que me escondem ao me desvelar
para os mortos.

Padrão
poesia

Oração

Que o pó da estrada
detenha
o pó dos homens.

Que a varredura
dos significados
seja jamais plena.

Que a duração
seja durável
mesmo nas margens
da alegria.

E no riso
um rasto
e no medo
nenhum.

Existência
sombra e
luz do dia.

Padrão
poesia

Foice

Garras de Saturno
não os anéis, garras
do estar-sendo
até o insanável.
Como não posso
decifrar
seus anéis, suas garras
dedos e apêndices.
Centenas
de milhares
de quilômetros
de diâmetros.
Nem toda mitologia
ou a curva do (teu) universo
justificam este único dia.

Padrão
poesia

Atopia

Eu, que não ocupo todos os lugares de fala
acesso o mundo azul da interação binária dos homens.
Ali, há exegese e superfície de discursos, não o lugar
ao máximo, experiências cifradas
que por sorte me chegam
algoritmicamente e por afinidade prévia.
Vivo de expressões limitadas, para conjunturas complicadíssimas.
Não são apenas os dilemas da língua
mas formas de silenciar-dizer por caracteres.
O ciberespaço me levou para um aquário
um tipo de biblioteca aquática
incinerada desde a antiguidade.
A Terra também pode ser um aquário
no reino da ética, sou um discurso ambulante.

Padrão
poesia

Walserianas

Ainda ontem, a coruja
pousada na existência
iludiu-me com a ideia
de conhecer Robert Walser.
Informou-me ter acompanhado
há muito, o sereno caminhante
e até Jakob existira
na profusão dos rostos que emanava.
Perguntei se aquela ideia insana
de andar até a morte
ser nulo, vago
paisagem na névoa
trouxe a ele a tamanha precisão
com as palavras.
Qual era a espécie de grito
que ele soubera conter?
Nada respondeu
a enfeitiçada e profunda
coruja, fez-me lembrar
o pássaro desolador
de Poe, tal a expressão
das pestanas, quase
um momento musical.
Na luz acesa da interrogação
a predação se fez doce
anularam-se os egos
restando o silêncio
pantanoso e comovente
do mistério.

Padrão