poesia

Conjunção

Há algo de irreal em meu nome
legado sem dono
no modo como choro
circunstâncias
no acordo obsceno
da imortalidade
que faz de cada homem
seu artífice
de possibilidade
como um tempo sutil
dominado por alçapões.

Ou há algo de obsceno
meu Deus
no modo como
sem nome
acordo dominado
por um tempo
artífice
onde cada possibilidade
é um homem –
ele cai
do próprio choro.

 

Padrão
poesia

Skeleton Tree

Ninguém te ensina
a devassar
o cômodo
do que és.

Ninguém sabe
das sobras
do toco
das velas

no último murmúrio
dos sopros
dos rebites
dos charques
dos ramos.

Se a porta foi aberta
se a escalada foi íngreme
se a torre é de marfim
se a Bastilha caiu.

Importa que te abras
para a noite
na forma cavada por Nick
suas sementes ruins
seu solo árido.

Importa: que não me ouças
que não me entendas
que por ti galgues
e talvez transcendas.

Padrão
poesia

Deriva continental

A poltrona onde me sento
e dialogo com fantasmas

os meus pés suaves na inexatidão
de pelos e poeira

a marca de invisíveis sapatos
o fim de semana quente de Outubro

a gripe satélite de outras postergações

os bichos e brigas sem explicação
o sono que não é o meu sono

o carinho que alarga tudo
o homem que acolhe tudo

a memória se apartando no cansaço

o movimento suave da confiança e do desejo
restaurando no cimento a aurora boreal

das dezoito marcações do horário de verão
num prenúncio que se delineia

como cicatriz de queimadura

a dimensão dispersiva
encarando no futuro

as cores os móbiles os retratos
os livros as conchas

é claro, as palavras
na certeza uma ilha

no continente aceso
um poema.

Padrão
poesia

Meritocracia

Acredito no ressentimento histórico e individual.
Prezo a solidão humana.
Valorizo a força imagética
desterritorializada da angústia.
Acho natural a dissolução.

Manejo as facções do meu cérebro
do meu sexo seduzido desabitado – poço de petróleo.
Me vendo no trabalho repetitivo
e o desprezo e cavo.

São rojões os poemas. São saldos negativos.
São dores cancerígenas.

Não bastam. Leio na pichação vizinha:
zerou a vida.

Nada detém, nada impede
até os canalhas de amar.

Mérito o de quem conquista
a coisa odiada.

Padrão
poesia

Noturna

Saio de casa
barriga a nu
sigo o rastro
do frio, saio
de arrasto
coração pisado.
Urbanidade de santos
esmagados
santinhos
batedores de carteira
institucionalizados e
devidamente escoltados.
População vestida
de propaganda e marketing
na Tijuca, muito lindo:
ninguém se olha
toda produção
os olhos ofuscam
(enquanto sonho em dirigir
um fusca).
Colarinho branco
protegido
agressor de mulher
inocentado –
mulher
carne barata.
Nessas eleições
100 reais
a boca de urna
na baixada.

Padrão