poesia

Pretérito perfeito

Me desfiz em operações bancárias
sofismas
outros redutos de sucção.
Desativei rochas
comi pedras
matei Sísifo.
Recriei silogismos absurdos
amei conclusões falsas.
Me afastei do Kafkiano
encontrei o Kierkegaardiano
ajudei Abrãao.
O valor encontrado na poesia
foi necessariamente verdade.

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Bando

Argumento de pássaro
na solidão circunstanciada dos assuntos.
Mecanismos radicais da indigência
sobre voo e possessivos.
Há tão só o domínio da leveza
e possibilidades.
Comunhões avassaladoras
seres seríssimos, violentos
risos, rios, rasantes
quedas sempre vertiginosas.
Argumento de ninho
na rotina das pernas
na ambiguidade dos idiomas, dos gestos.
Estar só, decifrar nuvens.

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Escola sem partido
Escola sem filosofia
Escola sem ideologia
Escola técnica sem técnica
Escola sem professor
Escola sem merenda
Escola sem ética
Escola sem estética
Escola sem escolha
Escola sem arte
Escola sem sociologia
Escola sem educação física
Escola sem educação
Escola sem pessoas
Escola sem convivência
Escola de concorrência
Escola de conivência
Escola sem escola

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Art is a guaranty of sanity

A aranha se nivela ao espaço urbano
o rosa é alimentado pelas cavidades orais
dois pedaços de madeira se abraçam
duas pessoas se amam e não se veem.

No refratário masculino ou museu
da imensa colcha de retalhos, almejo
Louise Bourgeois entre pernas mutiladas.

De peles que habitam almodôvares
de casas sobre eus femininos
de lampejos da gritaria

do passado, da máquina do tempo.
Na mania de cheirar o teto
de fotografar as árvores, de olhar o pai morto.

Amantes se deitam ao frio chão da sala
do ano de 2006 onde guarneço devires e cachorros.

Dez anos se passam: o céu se abre aos minaretes
o olhar de um muezim vale o templo
onde a arte é uma garantia de sanidade.

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Calígrafo

Poesia manancial de Filosofia
carne gosto abstrato
flecha da morte.

Líquida espessura
do habitante das ruas
do homem mais real

certezas assassinadas.
Na consoante oclusiva
ou na vogal sonhada

o que não se diz
é verbo andante
intertexto do verão.

O conceito o silêncio
a hemorragia
decifram-se à sua sorte.

Das pedras do ar
do pó
e da dor.

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Acidental

O jeito certo de cair
no fim do túnel
ponto cego
ou um coletivo assassino.
A palavra do noticiário
escoriações
na pele
do 11 de Setembro.
A moto quase intacta
as roupas levemente rasgadas –
o namorado Golias
empurra um ônibus
arranja um jeito
com o acaso
devolve com os braços
esfolados.
Cintura e
pernas roxas
pele nova
quase cobra
a primeira cicatriz de Abril
me interroga
releio Cenas de Abril.
Imagino
a tatuagem
de algo enterrado.
Rosa inflamada
rosa rosa
uma a uma e
seus espinhos.
Perto de casa
o perigo
e a renúncia.

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Há 1 minuto

​Que o poema se desintegrasse
como se vão antigas escolas
o que é de pensamento fica
apartidário, movente, circula
nas caudas míticas das sereias.

O meu intuito, fiar e desfiar
qual Penélope a inadvertida
trama do poema, propor
dobraduras, abrir as velhas cartas
na mesa, com as palavras do agora.

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