52 anos e 5 meses depois

Então é o seguinte: desobediência civil, resistência. R-existir. Tornar cada ato uma tenaz demonstração de nossa inconformidade. Aqueles que toparem conosco estejam cientes, nos círculos cotidianos, que não há acordo possível. E muitos me verão calma e corriqueira, mas na trincheira da palavra e do pensamento, pronta a fazer do espaço de convivência um exercício de crítica e posicionamento. Aceitar diferenças, mas não o inaceitável. E são tempos inaceitáveis.

Pássara
passarás?

Tuas asas
tuas sobrancelhas
tuas cores
Orlanda.

Flor e país
caveira e acontecimento.
Dia do juízo final.

Não te recolho ao nome
misturo teus gestos
à casa azul.

Metamorfoseio
identidades.

O que és
o que não és
está neste quadro.

Pássara
que fica
Frida.

Fome

Peço, de joelhos
pelo aviltamento do homem.
Minha igualdade se espraia
quando vara os rincões.
Sobre todos vocês
espantalhos de cifras
ordeno que as vacas
cumpram seu desígnio quimérico
de conceber o pasto.
As quatro partes de mim
se arrancam na moenda
norte, sul, leste, oeste
fazem girar a roda e o caminho.
Algoritmos de pássaros
bicam na barriga
do sistema vida.

Deslizo o beijo o barco
sem luz além da escotilha
com vista pra água desmoronada
o grafite em sua máxima pontaria.
A bossa e o prisma
poeira assentando
a cor que
nas línguas antigas
não tinha nome.
O mar se tingia de ameixa
ou era vinho
e assim se podia bebê-lo.
O céu a desfiguração
de sempre.
Mas como saber
quem sabia o azul?
Como escrevê-lo?
Escrevo dias
tão azuis.

Tem sempre alguém pra puxar teu tapete
pra quebrar tua perna
contar teus segredos
pra te apunhalar.
Esse alguém que não quer te ver
nem pintado de ouro
que te esqueceu e te despreza.
Não importa o tempo que passe
nem teus ganhos
nem teus fracassos.
Em geral, não é a mesma pessoa
que te trai e que te esquece
porque nem a morte é tão fria.
Mas nessa de procurar os padrões
nessa de enlouquecer tentando
e desistir de entender
tem sempre alguém que não desiste
de estar ao teu lado até o final.
Alguém que te olha como um quadro de Dali
ou um filme do Kurosawa
dolorido e surrealista
colorido como uma cerimônia linda
fúnebre e japonesa.

Sand River

Escrever um poema para Beth Gibbons
e pedir que repita a palavra fairytale
enquanto durar a estação
que não vem.

E sentir a areia o rio
correndo à voz solta
e lembrar da primeira vez
que essa voz me pareceu
outro mundo.

Realizar as conexões
que o tempo quebrou
perceber que o disco nunca arranha
que as unhas é que são feitas pra isto.

Que a compreensão não cabe na ternura
como o passado não cabe no peito
desanda o desaprender de ouvir.