poesia

A literatura me dá
a minha literatura
que não é feita de raios
mas de pequenas explosões de tempo.
Se faz pela torção da linha
mira no erro, acerta o alvo
mira no alvo, acerta o erro.
No conjunto universo da literatura
cada palavra é uma intercessão
uma tangência, rua transversal
do pensamento, convalidação
do cotidiano, sobre torpezas
entre o arcaico e o divino.

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Em Angkor Wat deposito meu véu sem cor.
Em Angkor me despindo de Vênus
e do meu primeiro poema
(sucumbia em seus espaçamentos, nuances, espasmos
seus pelos pubianos, seu batom).
Em Angkor Wat a distância se esfarinha
nas pedras milenares que calcaram o Império Khmer.
Um súdito me denuncia: nunca esteve
em Angkor, tampouco o mais vivente
(tudo pertence às árvores e às raízes).
Estima-se que pegou um avião e ingressou em Siem Reap.
Estima-se que sentiu a vertigem dos séculos transcorrerem seu sangue.
Estima-se que a alma dos templos te abraçou no Camboja
(eu mesma planejo isto).
No entanto, meu bom irmão, meu ocidente
saibamos nos aproximar da morte
intuamos o sagrado e a pobreza
ouçamos o som do navio partir
(e não é nem mesmo música).
Fica-se com o resto de si na penumbra
que esquece o santuário.
O abandono é um dom dos deuses
a guerra é ter pra onde ir.

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