poesia

Vapores

Caminho até a Praça XV
onde a seda vermelha
se enrola à estátua
equestre do general
Osório. Fagulhas
e fumaça alucinógena
fundida com os bronzes
dos canhões roubados
no Paraguai
incensam as acrobacias
das garotas
na manifestação.
Bandas, artistas independentes
ativistas
ocupam o cenário insólito
do Paço Imperial
que se estende
até o Cais do Valongo
onde hoje, depois de um ano
um simulacro de museu
se autodenomina o futuro.
Ali, permeados
pela Assembléia Legislativa
e a Bolsa de Valores
ali, em meio à multidão
e ao navio negreiro
zarpando por trezentos anos
tentamos dizer
que os vapores são mais permanentes
que o poder desses monumentos
que se ergueram sobre o
sangue traficado.
Atabaques podiam
dizer mais da infância
que o crime
sem a pecha
de brancos benfeitores.
Atabaques navegando
pelas encruzilhadas
do tempo
vindo a culminar no Brasil
esse ar opaco de suores
e fumaças transformadas
em vivo artefato.
Em abril deste ano
neste mesmo cenário
meninos negros se jogavam
na Bahia de Guanabara
num dia muito quente.
Tudo subsiste
eles ainda ostentam
a pele luminosa
explorada
de seus ancestrais.
Quem passava, tinha medo
da alegria irresponsável
e grandiosa
pela profundidade da sujeira
da bahia e do mundo.

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s