Pertenço aos campos
às ostras
e à miracema.
Mas nada sei
dos mecanismos furtivos
da natureza.
De saída me concedo
o apolíneo dom do erro
do genoma pendular de Dionísio
a boca de Hilda bebendo
a boca que bebe uma mulher.
Não é a boca da deidade
nem os beijos que ela oferece
nem os dedos que talvez te alcancem.
Há algo do substrato –
pense nas placas tectônicas
do meu corpo se movendo
na geologia do desterro.
Isso de ser filha do vento
de fazer das palavras
auras de ocultamento
voz da nudez
morada do ermo.

A escrita é o caos
permanente –

somos fragmentos
lixo intergaláctico

brilhando na dissipação
da eternidade.

Escrever é sobre nós
e os buracos negros.

Vapores

Caminho até a Praça XV
onde a seda vermelha
se enrola à estátua
equestre do general
Osório. Fagulhas
e fumaça alucinógena
fundida com os bronzes
dos canhões roubados
no Paraguai
incensam as acrobacias
das garotas
na manifestação.
Bandas, artistas independentes
ativistas
ocupam o cenário insólito
do Paço Imperial
que se estende
até o Cais do Valongo
onde hoje, depois de um ano
um simulacro de museu
se autodenomina o futuro.
Ali, permeados
pela Assembléia Legislativa
e a Bolsa de Valores
ali, em meio à multidão
e ao navio negreiro
zarpando por trezentos anos
tentamos dizer
que os vapores são mais permanentes
que o poder desses monumentos
que se ergueram sobre o
sangue traficado.
Atabaques podiam
dizer mais da infância
que o crime
sem a pecha
de brancos benfeitores.
Atabaques navegando
pelas encruzilhadas
do tempo
vindo a culminar no Brasil
esse ar opaco de suores
e fumaças transformadas
em vivo artefato.
Em abril deste ano
neste mesmo cenário
meninos negros se jogavam
na Bahia de Guanabara
num dia muito quente.
Tudo subsiste
eles ainda ostentam
a pele luminosa
explorada
de seus ancestrais.
Quem passava, tinha medo
da alegria irresponsável
e grandiosa
pela profundidade da sujeira
da bahia e do mundo.

Me deem um canto e sossego
e escrevo.

Me deem voz e tumulto
e eu vivo.

Nas jornadas do “não há o que esperar”
das lidas do “fazer acontecer”.

E do estar insuportavelmente atento
desbragadamente a esmo.

Crescem em mim girafas espiãs
da nova ordem às velhas dicotomias.