Objetos perduram

cismam em ser
mais importantes
que nós –

gravetos, casacos
canetas
pilhérias

senso de responsabilidade
por
pontas soltas.

Um caderno
e sua aura.

Um livro
e seu caldo primordial.

Quantos compostos
orgânicos
em centenas de decomposições?

O que nos constitui?

Experimento in vitro
generalizante

contrastando com a coleção
de objetos pessoais –

o desejo das montanhas.

Sábado

Vou usar o dia
para escrever com meus cachorros.
Ambíguo e canino dia.
Desabrindo-se das páginas
percorrendo quintais pós-furacões
eletrodomésticos em exposição
funeral do século XX.
Eu tenho sessenta e seis anos hoje
e assumo a identidade mística da cantora
com seus corcéis de cartas ciganas
e gatos e projetos estranhos.
Transformei meus cães em fotografias.
Meu amor tem os pés quebrados ou tem luxação.
Cancelo oitivas à praia, do mês vem o ar recessivo
da violência, nem parece Maio
se em tudo engendro calendários
referências plasmadas por osmose.
Destilo mandrágora, flor de capricórnio, bruxa enterrada
às dez da manhã de sábado.
Toda mulher resiste.

Por ocasião da descoberta da discografia no site oficial

A voz de Nara é um dia de chuva
e a chuva um pretexto para tantas coisas
que à voz é pura impossibilidade
de entoar. A voz de Nara propõe atmosferas.
Nisso consiste estar sujeito a umidades, cheganças
rodas de capoeira, canções de Roberto Carlos
às rezas de Edu Lobo e ao engajamento frontal de Zé Keti.
Se esse mundo é meu, como afirma Sérgio Ricardo
ou Ruy Guerra, o fato é que acorrentados somos todos
um pouco e, mal comparando, quando não saímos
porque chove e muito inconteste à potência de Baden.
O que há de versátil sabe que a voz de Nara é um tanto
mais dentro, fazendo paisagens nas goteiras perdidas
do oceano da voz ou das janelas, onde o que se lamenta
ri um pouco, se sabe, se basta, observa o mundo cair
quem sabe um repertório novo.

Todo feito de trigo e patas sujas
do feitio da vida incauta
que emaranha teus latidos.
Dentes servem para o sono
fome serve para os músculos.
Tua necessidade não provém da ração diária
mas de teus batimentos cardíacos
que embaraçam meus circuitos neuronais.
Tua genética branca, preta, caramelo
na contingência de espaços de correr.
Costuro aos olhos teu focinho, aí vou
onde não há a rudeza do tempo.