poesia

Vulgata

quero romper
depois que os nomes se apagarem
na ventania dos sussurros
quero que essa quebra
sempre repetida
me libere da angústia
de significar
quando não mais necessitarmos
de alianças
quero que arquemos
com o que sempre fomos
duas peças de um quebra-cabeça
interminável
duas rainhas em xeque
dois reis para matar
quero mapear a consciência
com o movimento das palavras
depois quero quebrar o disco
com a história de nossa tribo
de lúcidos e androides fodidos
e monges polissêmicos
afinando em seus quartos
o instrumento bêbado da solidão
e, sobranceiros, irradiando, afetando
deixando-se levar

que levem um poema
uma perna
que penetrem meu sexo
com o diapasão da lira
e arranquem a lira
da dissonância do meu corpo
ainda me sobrará a cabeça
ainda me rondará um totem
tabu
de onde quer que eu saia
onde quer que eu chegue
isto que me enverga
os nomes

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Res publica

então é assim
neste reino de águas não tratadas
nesta república de bananas
parece escrito: um roteiro
sistemático histórico bizarro
todos se devoram, inclusive os bananas
depois é merda jogada no ventilador
pra tudo quanto é lado
quem tem grana faz um poderoso tratamento
lifting com a merda
e transforma merda em dinheiro
mas a merda, não o dinheiro
volta para os não esgotos e contamina
de verde e amarelo
nossas supracitadas águas

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Baixada

Cá estamos
garupa e alçapão
desgovernados por janelas
o que queremos das encruzilhadas?
Vamos rentes às torres de alta tensão
nossos perigos não são carcaças
deixadas a esmo, de qualquer coisa
de nosso, o perigo é a velocidade.
O desenho que faz a silhueta de um ônibus no fim do mundo
e lá é tão fresco quanto o jardim botânico
os porcos andam sem que ninguém lhes aponte metáforas.
Vamos driblando o vazio de árvores que não se desvendam
vamos dando com pontes vazias, poentes úberes
acelerando ao vigor dos caminhões, irmãos nossos como elefantes.
Sujos de um punhado de sombras, um declínio de monte
uma promessa de fogo, um terreiro ao longe –
a música se enfaixa ao nosso corpo, cá estamos
múmias desse desejo de voar, de topar com o mundo em branco.

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Irmandade

Ensaio Aberto – Teofilo Tostes Daniel

Leio em loop infinito os versos que recebi hoje de minha irmã. Releio-os numa felicidade de imensidões. Eu, que me sei poeta e escritor por sua influência. Por desejar também ter cadernos pautados para jogar com a linguagem. Numa desmedida de ternura, quando os todos caminhos parecem abertos e transitáveis. Se bem que já havia tendências nesse tempo, quando você tinha pouco mais do que nove anos e eu, quase doze. Você tinha a altura e a intensidade de uma linguagem esgarçada pelo trágico. Eu arquitetava formas, engendrava desgastadas rimas e me divertia em impor regras para constranger a liberdade absoluta do dizer. Se a poesia em você eram jorros de metáforas dilaceradas nas asas dos pássaros, para mim valia a diversão de pôr palavras num pilão e extrair-lhes os óleos do inabitual.

Que dizer desse caminhar que, ao mesmo tempo, é solidão e partilha? Ouvimos de Drummond um conselho…

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Irmão

A linguagem nele
irradiou nos seres e nos objetos
concebeu uma gramática
em mim, labiríntica.
Chamei-o estruturalista
porque vejo em modo macro
sondada por sensações.
Minha razão encadeando
elementos assombrados
meu irmão operando ideias
com lógica e afeto.
Razões obsedadas
uma tremenda ternura
capricorniana
confusa confusa
em viver de signos.
Versus
o canceriano imenso
que pensa desde a palavra:
penso desde a palavra.
O mundo fizemos
um pacto
desta fraternidade.

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Suspensão

Agora, penso sempre o impacto
exposta à velocidade
sob a artilharia do vento
conduzindo meu corpo
às forças de empuxo
com motores que se acionam
desde 1867.
Dependo de solda
posto que há o pensamento
na impossibilidade de traduzir
arranques.
Deslindo o que temo
me renovo com as aves
me fazendo névoa, areia, e lama.

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Surda presença do olvido
ressoando areais e ferrovias
destecendo o mote das salinas
em declives e palpitações.
Medito, sem dar conta
sentidos da morte
que fazem o dia ser mais quente
a respiração consciente e compassada
enquanto aclaro de angústia meu sorriso
pra que a polissemia tenha vez.

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