Eles têm pressa
o terreno é árido
um ajuntamento de crenças
não salva uma lavoura.
Se sou urbana
sou uma alegoria
fé é coisa pouca.
Caminho pelas ruas
como por dentro de vãos
as mãos do ventríloquo
querem dizer-me
como fôssemos um alistamento
de palavras de ordem.
Olhar no espelho
ver onde se demora
o homem que você matou.

DERROGAÇÃO

Atravessar na faixa dos acontecimentos
pela régua do desamparo

atravessar uma multidão
pela incidência dos fatos.

Muito tênues, os pés
parados no ato

as sensações no asfalto
(mesmas dores de um parto).

No turbilhão, depois
uma solidão de ruínas

sobre a quietude massiva –
o ar pressuroso

habitado da paixão
(não se demora)

o sinal, vermelho.

Divisa

A janela da sala na chuva
de onde eu vejo, estreitamente
a correnteza
parece um papel rasgado
de parede cediça
outras janelas
vão descolando
penso que podem ocorrer cataclismos
mas o prédio que divisa o meu
a despeito do que não existe
como um retrato do que não se move
estará para sempre aqui
estranha e, sim, indesejada
testemunha da eternidade.

A mim que me deram armas ancestrais
me deram armas ancestrais.
Xamã me reconhece quando ostento
o sexo e me mostro filha.
Daquela que um mecanismo
perverso de mundo chamou
bicho do fundo de um quintal.
Falar de um modo quase tangível
não me tornar fictícia
ter o corpo firme os olhos fortes
encarar selvas onde houver selvas.
O cenário de uma facção
de pelos derramando a vida.
Vinda do cio, advinda
do teu seio de laguna:
espelho do pretérito
me quer hoje.

De mentira

“Creíamos que éramos país pero solo somos paisaje”.
Nicanor Parra

País ou paisagem?
Quem nos questiona
na cor violeta
do antipoema
está aí para ver
aceso e centenário
o que se faz ao continente.

Empunhamos bandeiras
com tvs de plasma
saudando invasores
sem dúvida humanos
que nos arregaçam
com pauladas de microfone
e muitos modos profissionais
de distrair nossa insônia.

Mitigados por diferenças
chanceladas a dólar
sufocados, embaixo do tapete
estamos nós, não a sujeira
desenhando um mapa obsceno
bula de remédio ou corpo pornográfico
impenetrável, cabal, fálico.

Duas centenas
de milhões de hectares
de embotados pesos
sem nenhuma leveza
sem nenhuma medida.

eu dizia que as pequenas coisas conferem uma circunspeção gradual
a que tomamos gosto quando as horas passam e já não envelhecemos
expunha numa espécie de transe meus olhos secos de chorar, o borrão vermelho no rosto
aos vinte eu nasci gritando
aos trinta amo o jeito como gozamos e ainda que me rasgue a pele
eu já odeio, aprendo a odiar, já não me assusto tanto
os projetos são intermináveis como a vida
os amores são mercúrio-cromo
e a febre é a arma contra casuísmos de qualquer jaez
só me viciei em café, e nas tais pequenas coisas que excedem a lembrança
ainda me falta o patamar da paciência
e todo poema é escrito com a velocidade da discórdia
certo afinco, nenhum perfeccionismo
e tudo tarda e chega tão depressa
e a vocação é um álibi impreciso para os solitários
e a música continuará tocando
the sound of silence e a modesta coreografia dos dez anos

Vereda 

tem a boca vazada
encontra liames numa alegria insolvente:
é preta e branca, cinza e verde
mulher no caminho
(é como pista falsa).
Ri no veneno possível do eterno
ente imóvel – o magnetismo
e o céu de bambu
vertem Vereda à cobra.