Publicações

Recentemente, saíram poemas meus nas revistas Diversos Afins, Zunái e Germina. Os links estão disponíveis na página Publicações, aqui do blog, para quem quiser ler. Aproveitei para atualizar a página, dividindo as publicações por ano, dentro da estruturação anterior: publicações digitais, impressas e youtube. O layout do blog também foi mudado. Nas próximas semanas devo começar uma série de leituras de poemas e textos meus e de autores que leio, que serão disponibilizadas no canal youtube. Retomo os experimentos fotográficos no tumblr, em relação dialógica com a literatura, e os cliques mais urgentes no instagram. A palavra se metamorfoseia quando migra dos olhos à boca e estou sempre à caça de enunciações.

Feita de contrastes
vida embainhada
ao sabor do gume.
As cartas na mesa
a espada de Hamlet
reverenciam a sorte
das frias manhãs
de verão –
é tudo jogo
tudo é imagem.

Garoa garota
espantalho
cabeças recebem das nuvens
a precipitação de voar
estando molhado
garotos
iconoclastas e deuses
se empenham na oração
de seus membros.

Fred

Preso há dezoito dias
conto as rachaduras das unhas
que limo na parede
para me livrar do tempo
confiro detalhes e sequências
de acontecimentos recentes
para vencê-los por minha
lucidez. Aprendo a
dormir apenas de bruços
inalando o cheiro
das minhas entranhas
sangue e dente perdido
jogo que preciso dominar.
Sou um personagem
literário um experimento
do absurdo e mesmo
irreal, machuco:
o que faz doer o irreal?

Ali, onde o tempo sobra.
Perto, móvel imóvel, dentro, incessante.
Onde a obra tem vínculo com a desaparição.
Olhos bicolores, anima, fastígio –
e cada postura é um ato
de incompostura
feroz e sem claves
cada órgão se instrumenta.
O esterno rasga o seio
do real, fere, ósseo
a quintessência da
voz-odisseia:
somos vilões
e somos herois.

Oriental

Recusar na primavera
os saibros e Saigon
enunciar em ecrã
a vida-desperdício.
Dedicar à cultura-mãe
meu abandono e
sob a musa
zunir um sonho
horroroso.
Acordar em Ulan Bator
lamuriar as árvores
patentear cavalos
entre duas fronteiras
ser vermelha.
Enrugar meu rosto
foragir meu vento
sumir dos campos.
Então o Volga
me refazendo – fluvial
me interligando.
Depois, de muito longe
um Bashô
me escreveria.

Pescaria

Leopoldo divisa as pedras
e é de pedra o seu legado
seu corpo brilha como pedra
brilha líquen
líquido homem
que vai ao mar, se estreita
que chega ao final do mar
que escolhe o minuto antes da chuva
que ensina a chuva sobre os peixes
que ensina os peixes sobre o sangue
e há uma criança
que não enxerga as pedras
e sonha a morte ao mar
e sonha areia
e tem os cabelos louros
como o que brilha sobre o corpo
bronze da pedra que ensina
o tempo ao menino.