Memento

Se cortam meus cabelos
as raízes
ou as pernas de Nijinsky
tudo constitui o fato central
de a vida ter seu eco no abismo.
As monções do pólen
devoram probabilidades
de haver certeza no vazio.
Mas o vazio é um ressurreto
que salta como um Deus
no alumbramento de Petrushka.
Cresce sempre e mais
que a paródia do domínio
a máquina da aparência
ou o feitio dos bosques.
Onde as sobras ainda vicejam
as sombras são como raios
e a revolta ainda não foi domada.

Memorial

a cidade tresmalhada pelo desejo canônico
da bem-aventurança do dinheiro

a cidade corrompida de seus traços
sequer revertida ou proibida

a cidade como uma aranha à deriva
pisoteada e faminta

tecendo teias
que enlaçam crimes

e refletem obsessivamente
o que sobrou do prisma

anticarnaval pós
moderno antropoceno

fluido: dejeto de vastidões
engolidas pela terra

em trajeto rumo
à bomba de hiroshima.

O verão consistiu em dissolver-se. Metade estrutura, metade minúcia. Chegavam-lhe bombas por onde não mais bombear. Sopros, sufrágios derrames. O sexo escolheu a estação mais tarde. A terra germinou de usura nos feitios quentes. Fazer justiça com os próprios lábios. Por fazer, fazer-se.

Deus me abre a corcova de pregador
esqueço parábolas.
O ódio acumula no tempo, nos móveis pesados.
Tudo perdi. No entanto, o amor das coisas breves.
No entanto, a ancestralidade.
Com os olhos desfolhados, as mãos cheias de feitiço
póstumas as mãos, a rondar o real além do real.
A neve suja do sol, Simenon, três vidas
a mancha o eixo infinito
do homem ordinário.
Quisera esvair o deserto
chamar de norte o começo
traficar palavras.
Tornei-me a arma
que me cala.