me visto de sargaços
como me visto de cinzas

a areia aquilata
minha adoração

animal
mineral

sou pedra
e tegumento

duas linhas se cruzam
em um ângulo de noventa

graus e formam
aquilo que eu não sou

o símbolo
o sulfato

matéria incinerada
da qual provenho

o resíduo aquoso
da certeza

contra o ácido
da repulsa

um mar me faz
tempo

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Viver treme

Se houver jeito
de morrer
mundo
ficar de tocaia
depois de sobra
na solidão da catástrofe
falanges dedicadas
me ingressarão em alguma
espécie de burocracia humana
ainda que única
recenderei à palavra
e à carne
em busca de acordos
vãos e rentes
com fantasmas.

Transbarragem

“Quiero existir más allá de mi mesma: com los aparecidos”
Alejandra Pizarnik

vísceras vísceras
expostas vísceras

quero encontrar meu corpo destroçado
quero exumá-lo da omissão
há soterramentos de mim

vísceras vísceras
afluentes de merda

sair como larva
no breu cessar
vísceras, vísceras

se cessamos de dizer
do que é feita a lama
se deixamos de lutar
se nos rastejamos

vísceras vísceras
para cavar
um covil

diante do desastre
cegos
pisoteados por outros agentes
cegos

vísceras vísceras
expostas vísceras

eu sou tóxica
você é tóxico

quando abrirão as
verdadeiras comportas?

vísceras
vísceras

quem são os vivos?
quem são os mortos?