a casa é um pântano, nada ensina que a casa é um pântano

onde ninguém mora, ninguém habita o pântano.
há criaturas saídas do pântano.

morar é desaparecer. você mora onde dói. a casa é onde dói. e canta.

você é um ecossistema. precisa de animais para abater. precisa de um pântano onde se esconder. você é feito de lodo. você é um pântano, talvez uma casa,

onde alguém saído do luto veio habitar, onde alguém abatido dói, alguém que canta e desapareça.

as casas ensinam que o sol é uma ilusão

e toda ilusão deve ser comida.

algumas ilusões germinam, poucas ilusões dão sombra.

um pântano deve conter muitos segredos, mas não. turvo demais até para o segredo.

os cachorros amam as planícies inundadas

e você se encharca de lodo, você vence o luto, você sai de casa, você encontra outra casa,

você desaparece.

a novidade é ribeirinha e logo cresce. logo um novo pântano se forma e se alastra de você. daí você se torna a criatura do pântano

é preciso sair outra vez

você escreve, ralha com os papeis, com os cachorros, devora os livros, desenha formas de vida: se adensa, se purifica

volta à cidade do lodo inicial. não há mais dor ou selva. tudo é erradio.

as coisas voltam a ser calmas, dentro da lágrima que te viu chorar de desejo

faz com que desapareça o monstro, torna-se a umidade que rasgou a mãe.

Ubiquidade

Identifico na linguagem dos predadores
o sentido (in)exato da impermanência
embora, em sua mescla de tipos
constituam a navalha sobre a civilização
e seus prismas refletidos sabem que
não há diferença na morte
há o fim, inalienável
modos tantos de ficar
sobre eles, os próprios predadores
terão de investir
seus afetos, versões, narrativas.

Dizer

a palavra contra a
qual

quer palavra
desvanecerá

ser mudo
mundo

sermão
ser monte

a tábua das leis
é o significado no gesto

a página dupla
que o meu sexo

desveste
significante

ele
mesmo

dis
curso.

Retrato

Algo da dureza dos séculos
lança sobre meu rosto
os faunos da tarde.
Lívido ante laranja
mágicos, incautos
traços – traçantes.
Sabem sazonalidades
zonas de sombreamento
contornam o queixo
regam a fome –
entorta a boca.

Paisagem absurda

Fulgura um poema de cabeça
salto mortal da imagem.
Não olhar retratos, códices:
as pedras se abrem por mãos sujas
na angústia nublada dos trilhos.
Árvores germinam tortuosas
nas encostas ao topo das casas.
Viagem quebrada pelo pensamento
diz-se no livro que a saudade
é sinônimo de esperança.
Deixar pra trás caminho
acumular ilusões, instantes?
Meus desenhos, de Sísifo
mitificado, não
humanos.