poesia

A poesia ativa as suturas todas
de um poema.

Isso quer dizer: trânsito
faca recostada na noite

niilismo nu
claraboia o sexo exposto.

Me lembro do canal do Itajuru
dos meus dez anos
quando leio um poema.

Há um fio de giz
um esgarço de sol

a memória delirando
dizentes.

Seria o cheiro da salina
às quatro da tarde?
O exílio poucos anos depois?

Não concluí o curso de Jornalismo
afundei amores

fui um navio léxico
no rio de qualquer janeiro.

Um poema sempre um poema
à deriva
da próxima página.

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Factível teoria conspiratória
chove em você, pele de escafandro
subjetivado pela metafísica
o que ainda toca?

São duas lentes para desver o depois
radicar, incrustar o ausente
serviço da paixão:
desgovernar-se é pertença.

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gosto de imaginar os escritores que leio
tecendo suas páginas que agora me enlaçam
mãos abocanhadas de ideias
traídas pelo espelho inviável da representação

para forjar o novo
o retrato virá
mesmo sem mímesis
a um segundo dali

todos queremos ter
um eco onde não vemos
nossa imagem desumanizada

eu me vejo nas páginas do que não cunhei
e sou mais fiel que as palavras refletidas

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Dissonâncias

a música foi minha primeira literatura
meu berço de decadência
a estrada incandescente
da vertigem

sou esta aeronave dispendiosa
de um antigo regime
que não se dissolve no coração
dos poetas

sou estranha e cheia de acordes
trítonos
um livro despachado para o nada

biblioteca rangente

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Anelo

acaricio seu chorinho
de cão, pequeno gemido
em minha infância corroída

falam os ossos por detrás das cortinas
o sol deriva de alguma manhã
Setembro anela os deserdados

um sorriso perfaz o futuro
pedra de toque, duríssima
surgimos sobre monturos

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