poesia

põe-se o naco das coisas no entre delas
põe-se a temer a desordem e a catástrofe
põe-se a dizer e a merecer
um estar entre somas
caminham clareiras, vapores, brumas
põe-se a mascar o sábado, as dobras do cão
a beatitude do cão, novíssimo amor
escuta os sexos jorrando, serranias
a larva turva que imiscua centímetros
os degraus do medo, a devoção do cão
o medo na dona do cão, textos amputados em seus dedos
debussy rangendo luas, a dobradiça do armário da cozinha
quebrada em testemunhar a vaguidão dos passos
norteando os latidos de Deus, chefe da matilha transparente
põe a ração do que queira nos perfumes suados da vida
põe-se a comer o desejo, como quem flutua a língua
dizer dizer silenciar dizer
sumir avocar transcender
um naco das coisas, quer queira quer não
resta, perece, suspende
o estertor vigora nos olhos
a confiança do sono suicida.

Padrão
poesia

Sou as entranhas de um país exumado de índios.
Oxumarés me salvam no tráfico negreiro.
Não me engano, é aqui, no seio de um homem
mutilado de seios.
Em mim, a voz desanca
há quem viva de desancar andores.
Fiz-me viajor, sala da aporia.
Não sei sentar, não sei ir.
Vivo de arrancar dos vivos
plagas e nas montanhas
conheço meus irmãos.
Não falamos a mesma língua
disruptivos da própria sorte.
Somos reis do silêncio.

Padrão
poesia

Sexta São Paulo. Friday Hitchcock. A estrada à meia noite é um pulso acidentado. Esmerilhado de forcas. The bluest eyes, the last day. Um dia, Texas. Há lágrimas que não choraram no corpo esguio do instinto. Os dias me roçam e soluçam. Esmago as referências, vou direto ao passado. Hoje: corromper é da fronteira, eu sou uma fronteira.

Padrão