a fissura que entra pela fitinha do nosso senhor do bonfim
amarrada ao meu pulso, por você
que tem o cheiro das nossas viagens
sobretudo, as que faremos
já que a fita não está ali por um pedido
para cultivar a memória
mas como um lembrete para tarefas práticas
embora alguém ou algo pudesse tê-la ungido
a fissura invade o interminável
conversas, rompantes, vaginas
este poema não ungido, banhado pelo café
em compasso com os atrasos
expelido e sangrado marcialmente
pela timidez incalculável de estar lúcido
a cada dez minutos
eu sei que se passaram dez minutos
enquanto dormíamos
esquecendo do que se desenha dormindo
acordo animada, prática, soerguida pelo presente
mas a fissura que entra pela fitinha do nosso senhor do bonfim
a fissura de um poema, o seu cheiro, que é uma fissura
o marcapasso do relógio
vão me cobrindo e lanhando
com a fruição do desespero
dando tônus, cafeína
fazendo-me irrecuperável, legítima
dentro de arbustos e do tráfego aéreo
as pernas agora contêm rodas
logo chegarei, com as crianças e o cachorro
a princípio, distraída, com o cheiro de queimado
das palavras, permeável, recôndita, possuída.

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