poesia

Anônimo

Presunção de inocência
do rastro deixado –
me comovo
como na primeira vez.
Desmantelado
o desejo, pacífico
de ser sem nome.
Nenhuma raia para avançar
o milímetro esconderijo
de ser feio e cruel
de ser manchado.
Guarnecer a fronteira
do público
ceder ao levante
esquadrinhar minudências.
Aos olhos do tempo
uma soberania.

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a fissura que entra pela fitinha do nosso senhor do bonfim
amarrada ao meu pulso, por você
que tem o cheiro das nossas viagens
sobretudo, as que faremos
já que a fita não está ali por um pedido
para cultivar a memória
mas como um lembrete para tarefas práticas
embora alguém ou algo pudesse tê-la ungido
a fissura invade o interminável
conversas, rompantes, vaginas
este poema não ungido, banhado pelo café
em compasso com os atrasos
expelido e sangrado marcialmente
pela timidez incalculável de estar lúcido
a cada dez minutos
eu sei que se passaram dez minutos
enquanto dormíamos
esquecendo do que se desenha dormindo
acordo animada, prática, soerguida pelo presente
mas a fissura que entra pela fitinha do nosso senhor do bonfim
a fissura de um poema, o seu cheiro, que é uma fissura
o marcapasso do relógio
vão me cobrindo e lanhando
com a fruição do desespero
dando tônus, cafeína
fazendo-me irrecuperável, legítima
dentro de arbustos e do tráfego aéreo
as pernas agora contêm rodas
logo chegarei, com as crianças e o cachorro
a princípio, distraída, com o cheiro de queimado
das palavras, permeável, recôndita, possuída.

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Minhas vozes são de outros.
Assim, curo interminável afasia.
Sempre fui alta e doce.
Desajeitada, ouvi tudo que quiseram me dizer.
Revidei com desperdícios manicomiais.
Como entender a insônia prolongada?
A serventia ortodoxa dos corredores?
O jejuar impróprio do inconsciente?
Vou de mim pra algum lugar.
As vozes ficam loucas como velhos.
São vozes de infância, algas, corredeiras.
Vozes de serrotes, gemidos, vulcânicas vozes de livros.
Cada uma vem buscar sua simetria.
Sem saber a quantos decibéis se fazem transparentes.
Quanto é preciso calar e matar.
Até sermos violenta distância
que nada aparta da paisagem
meu duplo você.

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