o tempo é uma herança maldita, ficamos para o espólio com a medalha de prata. o quase, cobiça da imortalidade. temos um legado de rapinagens e delicadezas. o perpétuo se amarfanha no sono da carne. todos os véus são véus de nudez. a conservação é imediata. o fracasso é iminente. o esquecimento é sábio. a revolta é justa. e o amparo não há. porque o amor é um fosso. um deus dos sem deuses. os deuses sem deus. ainda é preciso ser ameno.

Enxertos

Tenho mãos incongruentes que respaldam buracos na linguagem.

Nasci nas dobras de uma afeição a outra, no pacto circunstancial do sexo.

Sou filha da hegemonia da luz ou das sombras?

Há ancinhos nos meus olhos esquartejados de ver.

Faz um frio monumental, desde a infância. É preciso que me toquem e que me rasguem.

Sou inconciliável comigo.
Minha certidão de nascimento
é uma errata.
Meus dias são andróginos.
Nada me assegura a mim.
Tudo é tão longe
embora o espaço, esparso
se consuma no fogo cruzado
de ser eu e ser outro:
em minha cama cabe uma galáxia.
Em meus olhos, supero a morte.
Nenhuma traição me vence.
Sou meu buraco negro.
O Deus ocidental eu navalho
com o correr do sol.

Proponho uma duração
em que o espírito de cada sentença
tente assumir o risco
de sua forma, vá mais alto
como vão abutres e deuses
importa a tensão
da queda.
Sobre despojos
um fotógrafo chamado Eggleston
ergueu imaginários
saturou as cores como quem
decompõe
se alimenta de restos.
Numerosos exemplos
para transfigurar a eternidade
ineficácia plena
contra a necrofagia do pensamento.
Encontrar uma raiz
uma sequela
uma asa congênita.
Bastaram lanchonetes em Memphis.
Entregar os olhos ao breu
no alto Gávea
essa paisagem perdida
esse apêndice carioca
essa limusine rosa na rua.
O real fantasmagórico
vários sotaques sozinhos
árvores mais unidas que nós.
A imagem monumental de um triciclo
corroído
permanece fincada na parede
de uma casa enorme e fria
até o dia vinte e oito.
Durar talvez seja o zelo
com que certas coisas
vão se perder na memória
reunidas pelo acaso
sendo nossa carne
uma intenção de futuro.

Vou, retorcida, esgotar a célula inerte. Que pode o ferrolho diante do meu oco? Desloco aberturas, sou a ereção do cimos, estrondo além do nomes. Diluviana. Meu nume de batismo.