poesia

e esse algo grandioso
pode ser apenas
a nulidade de tudo
um grande algo
servindo de algemas
– estratagemas

não que sejamos niilistas
ou otimistas
somos o elo
entre a coisa e o mercado
artefato humano
livre, despovoado
de embaraços

feito de nudez violável
e desessências manchadas
seguras em arrancar
um traço das espáduas

eu digo a lógica em abandono
o grande eu
não se inaugurou aqui
não morreu neste lugar
nem pensa trocar de eu

coletivo desarraigado
coletivo atomizado
cadeias químicas
e a miséria das cadeias

versus: o fluxo em que misturaremos
nossos fluidos
a calma manancial dos hábitos
as mudanças definitivamente postas em nos conduzir

sobrou tapume
e sobrou o inefável
o sol é aquilo que resta

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poesia

colocar tapumes no inefável

meu nome é chacina
meu nome é ninguém

insisto em armistícios

sabemos que bandeiras
esgotam o céu

ter uma casa de chamados

concreta e aveludada
as bandeiras certas

não foram ainda empunhadas
sobre elas os punhos da opressão

eu descia a cidade e o sol sabia que
éramos fracos

havia um conclave em maio
feito de acontecimentos minúsculos

ao redor da nossa paixão
uma coisa gigantesca não é enunciada

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as paredes estão nuas de mim
as bicicletas me querem
uma jangada rasga minha pele

quero partir
para lá dos acontecimentos
sem geometria
ou mesmo, música

meus aparelhos eletrônicos
deram defeito

respiro próxima a fuga
de arcozelo

sou um declive
meus joelhos sofrem
intervenção federal
não há lugar seguro

sob um punhal de dias
coleciono contraturas
lapsos, frações

embora as paredes nuas
a fuga
a degola
fios desencapados

de mim, o franco assombro
um espaço rasgado para o barco
um seixo, o enjoo

pilhas de paredes nuas
anotações em timbre menor
cegado tempo de abrir clarão

eu sou uma ausência

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