o corpo é a única ponte possível
o corpo perecível, falível por si
é o corte e o facão
semeia a tempestade

de quem fale pelo corpo
revele o corpo
ostente esse olho
de carne se diz, meu irmão

faremos dele a casa
o amor
o templo
e a morte

não haverá o tempo
o corpo, enquanto ponte
há de inaugurar o abismo
e vencê-lo

Dentes de Jaguadarte

Fotografar dentes, partículas
mastigar a cabeça do século
relatar o estrondo na antessala da loucura.
Ficam os ossinhos moídos, do pescoço
lânguidos ossinhos que quebram os dias
e delimitam os espaços
: uma clareira no centro da estrada.
O gigantesco vem sem molde
enquanto temos lábios, grandes lábios
para tocar o batismo das coisas
cicatrizes, estaturas, películas.
Desacorçoados no leilão de nós mesmos
capitalizando o acúmulo da nossa espécie.
Talvez o novo tenha patas
e ostente o rabo, elo perdido
que alçamos à condição de sentido.
Vontade de rasgar tudo
enquanto não se revela
a fotometria das almas
o filtro que usamos para sorrir ou morder
com dentes de Jaguadarte.
Ficam as eras, lesmas brilhosas
que servem aos retratos
e minha suavidade perverte.